A independência não é uma boa para ninguém, mas a Catalunha tem direito.

O deleite dos amantes da história é poder saboreá-la in loco. Enquanto houver humanidade, haverá história, embora seu fim já tenha sido pretendido por muitos especialistas. A questão da Catalunha, agora em evidência nas principais manchetes, é um exemplo claro da vivacidade e contínuo processo histórico. A região catalã, que por séculos trava uma luta de independência com a Espanha, fez suscitar novamente, em pleno 2017 e quase mais de um milênio de sua existência, seu direito ao status de nação independente e não mais de mera ‘província’ espanhola.

Hoje a Catalunha é a região mais rica da Espanha e responde por mais de 20% do PIB do país. É também o principal polo industrial espanhol, concentrando a tecnologia de ponta do país. Sua história remonta à 1150, quando a Petrolina, de Aragão, e o conde de Barcelona Ramon Berenguer selaram matrimônio e deixaram as terras da região para seus herdeiros. Até 1714, segundo defendem os catalães, a região viveu como um Estado independente. De fato, a Catalunha tem língua e cultura próprias, além de tradição e símbolos patrióticos, o que lhes dá todas as credenciais para ser uma nação livre. Mas, em 1714, durante um guerra de Sucessão na coroa espanhola, após a morte de Carlos II, o Enfeiçado em 1700, quando as dinastias francesas, na figura de Felipe IV de Bourbon, e austríaca, representada pelo arquiduque Carlos da Áustria, lutaram pelo poder, os catalães tomaram o partido dos austriacistas, partido do arquiduque, que perderam a guerra, e a Catalunha, por consequência, a independência, tendo tornado-se uma região da Espanha, embora com quase plena autonomia.

Em 1938, durante a Guerra Civil Espanhola, a liberdade da região sofreria outro revés. Invadida pelas tropas do ditador Franco, numa sangrenta batalha que matou mais de 3500 pessoas, a Catalunha perdeu todas as suas prerrogativas de região autônoma e assim viveu até 1977/78, quando a Espanha voltou à democracia e devolveu a autonomia da região.A Constituição espanhola, que validava a autonomia da Catalunha — sem lhes dar independência, porém — foi aprovada por mais de 90% do povo catalão. Quase por unanimidade, o povo da Catalunha entendeu e quis que aquele pedaço de chão estivesse integrado ao Estado espanhol. Em 2006 o governo espanhol aprovou o estatuto de autonomia da Catalunha, mas em 2010, a lei foi questionada pela corte suprema da Espanha e partes importante da autonomia catalã foi suprimida, o que desassossegou as correntes políticas separatistas, que em 2015 conseguiram chegar ao poder com a proposta de independência.

Desde então, o governo catalão, sob a liderança de Carles Puigdemont, instiga a população a manifestar-se sobre e pela independência, tendo convocado para 01 de outubro desde ano (2017) um plebiscito ‘oficial’ que teoricamente vincularia o parlamento regional ratificar seu resultado, ou seja, bastaria a maioria pelo sim, para que o parlamento decretasse a independência. No entanto, o governo da Espanha não reconhece a consulta popular como legítima e posicionou-se contrário a votação, defendendo total repressão ao movimento separatista nas urnas.

Meses antes de oficializar o plebiscito, o governo local realizou uma enquete onde 49% dos catalães se posicionaram contrários a separação, contra 41%, favoráveis. Este é mais um argumento usado pelo governo central da Espanha para neutralizar as ações separatistas. Mariano Rajoy, presidente espanhol, e os opositores da independência vêm argumentando que um plebiscito que justificasse a independência deveria no mínimo superar em números a aprovação da Constituição espanhola pelo povo catalão em 1978, que foi em dois pontos percentuais superior à média espanhola.

Links úteis para entender a questão:

Por que a Catalunha quer ser independente da Espanha?

Dez mitos sobre a independência da Catalunha

Entre Espanha e Catalunha, séculos de embate

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