A questão da Síria: uma bomba atômica assusta, mas não é necessário uma para se consumar uma tragédia.

Enquanto Trump e Kim Jong-un ameaçam-se reciprocamente com suas bombas nucleares, desde 2011 mais de 328 mil pessoas morreram na Síria vítimas da guerra civil que domina o país. Se a questão da Coreia é uma sombra da Guerra Fria, na Síria ela está sendo revivida em toda sua intensidade, com as duas maiores potências militares e nucleares do mundo, EUA e Rússia, em um conflito quase direto.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos divulgou esta semana dados referentes aos mês de setembro (2017) sobre as vítimas da guerra no país. No total foram 3055 mortos — recorde do ano — sendo 955 civis, incluindo 207 menores de idade e 148 mulheres. A maioria vítima de ataques aéreos.

Se um fato poderia suscitar hoje uma guerra mundial, este seria a guerra na Síria. EUA e Rússia estão em campo de batalha, em lados opostos, bombardeando-se diariamente como nos velhos tempos das guerras do Vietnã, nos desertos do Afeganistão e mesmo das Coreias.

A Síria entrou em guerra em 2011, na esteira da Primavera Árabe, que teve início na Tunísia, passou pelo Egito, e varreu do mapa vários ditadores — a exemplo de Muamar Kaddaf, da Líbia — que por anos governaram seus países com mão de ferro e pouco escrúpulo. Na Síria a ‘revolução’ empacou. Bashar al-Assad, que sucedeu ao pai no governo e vem de uma dinastia que já governa o país há mais de 30 anos, conta com o apoio do Irã e da Rússia e conseguiu refrear o ímpeto dos revoltosos apoiados pelos EUA, que tentaram, no clamor dos distúrbios de 2011, tirá-lo do poder.

O ponto crítico da questão é que a Síria — que é um país xiita, a exemplo do Irã — tem parte de seu território ocupado pelo grupo terrorista que seu auto-denomina Estado Islâmico (EI), que é de origem sunita e luta contra o governo de Bashar al-Assad, que por sua vez é inimigo declarado dos EUA. Assim, ao mesmo tempo que o governo americano apoia os combatentes contra o governo de al-Assad, procura também combater os EI, que já cometeu diversos crimes bárbaros contra cidadãos americanos e se diz oficialmente em guerra contra os EUA. A Rússia por sua vez, aliada do Irã, que mantém laços de amizade com o governo sírio em apoio à causa xiita, não abre mão da região como parte de sua zona de influência.

Então, os EUA bombardeiam a Síria porque querem destruir o governo de Bashar al-Assad e o Estados Islâmico; a Rússia bombardeia a Síria porque é aliada de al-Assad para se impor contra os EUA e o EI; e a Síria bombardeia a própria Síria, porque as tropas leais ao governo lutam com unhas e dentes para salvá-lo, desde 2011.

A tragédia da Síria, que não possui uma bomba atômica, e é o maior ponto de tensão no mundo atualmente, pode ter arrefecido nas manchetes ante as bravatas de um coreano maluco e um americano senil munidos de armas nucleares, e passa despercebida como um clássico exemplo que do que fizeram EUA e a ex-União Soviética durante toda a Guerra Fria, que nada mais foi do que se enfrentarem indiretamente. Mas com seus 328 mil mortos em pouco mais de cinco anos e uma crise sem precedente de pessoas refugiadas, a questão da Síria nos dá a certeza de que não é necessário que malucos apertem seus botões nucleares para que uma tragédia esteja definitivamente consumada.

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