Para entender: as consequências das eleições alemãs e os novos rumos da política de Merkel.

Angela Merkel está entrando para seu quarto mandato à frente do governo da Alemanha. Desde 2005 no comando do país, Merkel agora poderá igualar-se ao seu ex-mentor político, Helmut Kohl, em longevidade de governo. Mas, apesar da vitória, Merkel na verdade saboreou um gostinho de derrota. As eleições de domingo (24/09/17) apontam para um ruptura na política alemã, tanto no que diz respeito às questões internas, quanto às externas.

No pleito do último dia 24, firmaram-se quatro principais forças políticas no país: o próprio partido de Merkel, CDU; o SPD, segundo colocado e atual membro da coligação do governo; e a grande novidade, que embora para ninguém tenha sido surpresa, o utra-radical da extrema direita, AfD (Alternativa para a Alemanha), que fisgou 12,9% dos votos, garantindo-se como terceira força política no parlamento alemão. Afora isso, voltaram ao parlamento liberais, que possivelmente formarão o novo governo com Merkel, com 10,7% dos votos; e os Verdes, com 8,9%, também cotados para o novo governo.

O grande dificultador de Merkel é que agora, com a entrada do AfD no parlamento alemão como terceira força política no país, ela se verá diante de um tabuleiro de xadrex para montar o seu novo governo, tendo que abrir mão da aliança com Schäuble, do SPD, que lhe garantiria a continuidade e sucesso de sua política atual e frente aos desafios da União Europeia, para se aliar, possivelmente, com os liberais (FDP), liderados por Christian Lindner, que já acenou que tal aliança depende de novos rumos na política alemã.

A saída de Schäuble (SPD) do governo, é claramente, a primeira grande consequência da chegada dos ultra-radicais ao Bundestag (parlamento alemão). Isso porque, consolidados como terceira força política no cenário nacional alemão, o AfD teria condições de comandar o parlamento. Assim, o arranjo político capaz de neutralizar esta possibilidade, é a ida de Schäuble para o comando do Bundestag, onde poderá colocar sob controle os novos nazistas.

Desde a Segunda Guerra Mundial um partido radical de direita não chega ao parlamento com força significativa capaz de mudar rumos e estratégias políticas. No entanto, o AfD, fundado em 2013, veio ganhando força, sobretudo entre o tradicional eleitorado do CDU de Merkel, no lastro das insatisfações provocadas principalmente pela política de imigração da chanceler.

O pequeno, mas agora ‘poderoso’ partido que tira o sono de Merkel nasceu com a principal bandeira de fazer fracassar a zona do euro, para restabelecer o Marco, e inclui ainda em sua agenda questões caras à sociedade alemã, como a proibição do aborto e o combate à política de imigração. A este respeito, Alice Weidel, importante nome do partido, prometeu “caçar” Angela Merkel e avisou que pedirá uma comissão parlamentar para investigar a chanceler: “Violou as leis ao permitir a chegada de centenas de milhares de refugiados”.

Estamos no limiar de uma ruptura na política imposta por Merkel desde 2005, quando assumiu o governo. Ainda resta alguns meses para que Merkel monte seu novo governo e demonstre aos alemães como lidará com as provocações e alfinetadas dos radicais. E só então saberemos na prática quais a consequências das eleições de domingo na maior potência econômica da Europa, com uma população de mais de 85 milhões de pessoas.

Links:

A complicada tarefa de formar Governo na Alemanha

A frágil vitória de Merkel complica as reformas na Alemanha e Europa

Eleições abrem período de incerteza na Alemanha

Deixe um comentário