Livros – História e Atualdiades https://historiaeatualidades.com.br Com o prof. Richard Abreu Thu, 14 Sep 2023 15:19:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Civilização, resumo do livro de Niall Ferguson https://historiaeatualidades.com.br/2023/09/14/civilizacao-resumo-do-livro-de-niall-ferguson/ https://historiaeatualidades.com.br/2023/09/14/civilizacao-resumo-do-livro-de-niall-ferguson/#respond Thu, 14 Sep 2023 15:19:06 +0000 https://historiaeatualidades.com.br/?p=16308 Civilização: Ocidente x Oriente e as origens do conflito global, título original em inglês, Civilization: The West and the Rest, de Niall Ferguson, foi publicado no Brasil em 2011, pela editora Planeta. No livro, Ferguson explora a ascensão e queda das civilizações ao longo da história, comparando o desenvolvimento do Ocidente com outras partes do mundo, especialmente o Oriente. O autor examina as razões pelas quais o Ocidente se tornou dominante no mundo, enquanto outras civilizações enfrentaram desafios e declínios.

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Breve introdução à Civilização, de Niall Ferguson

Em Civilização: Ocidente x Oriente, Niall Ferguson argumenta que fatores como a Revolução Industrial, a ciência, a propriedade privada, as instituições políticas e econômicas, bem como a cultura, desempenharam importante papel na formação da civilização ocidental. Com essa linha de raciocínio, Ferguson aborda questões históricas, econômicas e culturais, procurando entender as dinâmicas que moldaram o mundo moderno e os conflitos entre diferentes civilizações.

Ferguson considera a Revolução Industrial como um dos principais pontos de virada na história do Ocidente, com grandes implicações para o desenvolvimento econômico e para as relações globais. A partir dessa perspectiva, busca compreender as causas subjacentes à Revolução, destacando fatores como: a combinação de capital disponível, inovação tecnológica, mão de obra qualificada, recursos naturais abundantes e o ambiente legal propício ao empreendedorismo.

O autor argumenta que esses elementos, interconectados, criaram as condições ideais para a transformação econômica no Ocidente, que sobrepujaram as civilizações orientais, calcadas em valores opostos a esses.

Aspectos impulsionadores do desenvolvimento ocidental segundo Ferguson

Outros aspectos abordados por Ferguson, em Civilização, são o desenvolvimento da medicina, da ciência, a proteção à propriedade privada e a competição, como as condições propícias para o incremento do consumo e valorização do trabalho, e como fatores impulsionadores do desenvolvimento ocidental.

Medicina

Especialmente, acerca da medicina, Ferguson ressalta as inovações, sobretudo a partir do Iluminismo, de práticas médicas, que transformaram o cotidiano da população, dando impulso a melhores condições de vida. O autor menciona os avanços na cirurgia ocidental, incluindo práticas assépticas, que revolucionaram a capacidade dos médicos de realizar procedimentos cirúrgicos de forma mais segura e eficaz e como esses avanços na medicina contribuíram para melhorar a qualidade de vida das pessoas no Ocidente, incluindo uma redução nas taxas de mortalidade infantil e uma maior expectativa de vida.

Propriedade privada

Em Civilização, Ferguson destaca que a proteção da propriedade privada gerou um ambiente de incentivos para o trabalho, onde indivíduos e empresas sentiram-se estimulados a investir em empreendimentos produtivos e inovação. Assim, o autor aponta a proteção à propriedade, como um dos pilares do capitalismo e do desenvolvimento econômico ocidental em relação ao Oriente.

Competição

Calcado na ideia de propriedade privada como um dos fatores impulsionadores do desenvolvimento ocidental, o autor explora, também, esse outro aspecto de primazia ocidental sobre o Oriente. Ferguson aponta que a competição econômica entre nações, empresas e indivíduos como tendo desempenhado um papel fundamental para isso. Argumenta que a busca pelo sucesso econômico estimulou a inovação, a produtividade e o desenvolvimento de mercados eficazes. Discute, ainda, como a competição política, especialmente no contexto da rivalidade entre nações e o surgimento de estados poderosos levou a alianças, conflitos e mudanças na ordem mundial, impulsionando o desenvolvimento.

Conclusão

Em sua obra “Civilização: Ocidente X Oriente e as Origens do Conflito Global”, Niall Ferguson apresenta uma análise abrangente da história do Ocidente, destacando os fatores que contribuíram para seu sucesso e influência ao longo do tempo. Através de uma abordagem interdisciplinar que abrange economia, política, tecnologia, cultura e medicina, Ferguson explora as complexas dinâmicas que moldaram a civilização ocidental e a colocaram em confronto com outras civilizações, especialmente as do Oriente.

Alguns dos temas centrais da obra incluem a importância da propriedade privada, a competição como motor de progresso, a inovação tecnológica, a evolução política, a globalização e o impacto da medicina no desenvolvimento da sociedade. Ferguson argumenta que o Ocidente se destacou devido a seu compromisso com princípios como a proteção da propriedade privada, a busca pela inovação e o desenvolvimento de instituições políticas e econômicas sólidas.

Ao mesmo tempo, o autor não ignora os desafios e contradições que surgiram ao longo da história do Ocidente, incluindo desigualdades econômicas, conflitos internos e externos, bem como questões éticas. Ferguson também destaca a interconexão do Ocidente com outras partes do mundo, especialmente o Oriente e a África, e como essas interações moldaram as relações globais.

Serviço

O livro de Niall Ferguson, Civilização: Ocidente X Oriente e as Origens do Conflito Global, pode ser adquirido na Amazon, ao custo de R$23,00, no formato Capa Comum (impresso). No site da loja há edições novas e usadas, a custos variáveis. Para usuários Prime, o frete é gratuito, com entrega pela própria Amazon.

Sobre o autor: Niall Campbell Ferguson é um historiador escocês. Leciona história na Universidade de Harvard, é um pesquisador em Oxford, associado sénior no Instituto Hoover e na Universidade de Stanford e professor emérito da New College of the Humanities (Wikipedia)

Outros livros de Niall Ferguson

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Resumo do livro Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais, de José D’Assunção Barros. https://historiaeatualidades.com.br/2020/09/11/resumo-e-fichamento-do-livro-teoria-da-historia-principios-e-conceito-fundamentais-de-jose-dassuncao-barros/ https://historiaeatualidades.com.br/2020/09/11/resumo-e-fichamento-do-livro-teoria-da-historia-principios-e-conceito-fundamentais-de-jose-dassuncao-barros/#respond Fri, 11 Sep 2020 18:45:16 +0000 https://richardabreu.com.br/?p=5755 O livro Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais, é o primeiro de uma coleção de cinco volumes do professor José D’Assunção Barros, publicado pela Editora Vozes. Neste post, ofereceremos um breve resumo da obra, que pode ser útil para guiá-lo em uma leitura mais aprofundada do livro.

Por que Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais?

A escolha desta obra se deu pela compreensão de que trata-se de um livro fundamental, principalmente para historiadores principiantes e/ou estudantes — em fase de graduação ou pós-graduação. Isso porque, Barros, neste volume, como o subtítulo do livro indica, trata da definição de conceitos fundamentais à prática da História. Certamente, este volume, é dispensável para acadêmicos experientes, mas poderá fazer grande diferença na formação inicial de jovens historiadores.

O livro de Barros conta com 319 páginas, incluindo bibliografia, índice onomástico e índice remissivo, e foi publicado pela Editora Vozes. O exemplar de referência para este resumo é da 5ª edição, e poderá ser adquirido na Amazon, em formato digital ou impresso.

A obra está organizada em três capítulos: “A teoria e a formação do hsitoriador”; “Teoria da História e Filosofia da História”; e “Alguns conceitos fundamentais”. Neste post apresentaremos o resumo do primeiro capítulo, e em publicações posteriores, os dois outros.

Primeiras reflexões: os conceitos de disciplina e campo disciplinar.

Em Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais, as reflexão iniciais de D’Assunção Barros partem da definição dos conceitos de disciplina e campo disciplinar. Sem se ater, neste momento, especificamente ao campo disciplinar “História”, o autor elabora uma clara explicação para definir o que é uma “disciplina”, como ela se constitui e o que a caracteriza como tal. Para tanto, enumera dez aspectos ou dimensões que se fazem presentes na constituição de todo campo disciplinar, e que em interação entre si, o tornam singular em relação à outras disciplinas. São eles: o campo de interesses, as singularidade, os campos intradisciplinares, o padrão discursivo, as metodologias, os aportes teóricos, as interdisciplinaridades, os interditos, a rede humana, e por fim, o seu olhar sobre si, que advém de um conjunto de fatores que, de certa maneira, mobilizam todas as demais dimensões disciplinares.

Para BARROS (2014), em seu processo de constituição, uma disciplina, ou campo disciplinar, é necessariamente histórico, uma vez que é construído socialmente, no tempo. Um campo disciplinar, para assim ser concebido, guarda em primeiro lugar uma peculiaridade, que é a sua singularidade de interesses. Emprestando a conceituação de Marc Bloch, em Apologia da História, explica-nos que o campo disciplinar História, por exemplo, embora partilhe com outras ciências humanas e sociais o interesse pelo homem, encontra sua singularidade, ou seja, aquilo que define a sua identidade, ao referenciar este objeto de estudos, “o homem no tempo”. Quer dizer, o que interessa ao estudo da História é homem, mas localizado temporalmente, historicizado. Isto estabelece a especificidade da História enquanto disciplina, tornando-a distinta de outros campos de disciplinares, como a Antropologia ou a Psicologia, por exemplo, que partilham do mesmo interesse, o homem, mas em diferentes contextos e dimensões.

Os objetos da história – isto é, o seu “campo de interesse” – em que pese que pareçam coincidir em um primeiro momento com os objetos possíveis das demais ciências sociais e humanas, serão sempre objetos “historicizados”, “temporalizados”, marcados por uma atenção à mudança em alguns de seus níveis”

(BARROS, 2014, p. 21)

A interdisciplinaridade e a intradisciplinaridade.

Outros dois importantes aspectos a um campo disciplinar, é o que diz respeito à interdisciplinaridade e à intradisciplinaridade. Para BARROS (2014), toda disciplina tende, em seus espaços de discussão, à interdisciplinaridade, uma vez que forja a sua identidade a partir de diálogos e disputas com outras disciplinas já constituídas. Por sua vez, a intradisciplinaridade tende à estabelecer campos de especialização no interior da disciplina, tal como acontece com a História e suas subdivisões, como a Micro-História, História Militar, entre outras. Este dois aspectos disciplinares, se interrelacionam em um campo de forças, contrabalanceando-se, de tal maneira que impõem um ao outro, equilíbrios que impedem a hiperespecialização. Da mesma forma, mantém coeso o conjunto de práticas, saberes e objetos de estudo daquele campo disciplinar.

Essa tendência ao desdobramento interno e à crescente especialização – que se apresenta como uma característica de praticamente todos os “campos disciplinares” no período contemporâneo – tem sido um aspecto inerente à história da civilização ocidental, sobretudo a partir da Modernidade, o que não impede que os efeitos mais criticáveis do hiperespecialismo sejam constantemente compensados pelos movimentos interdisciplinares e transdiciplinares, voltados para uma “religação dos saberes” em um mundo no qual os campos de produção do conhecimento vivem a constante ameaça do isolamento.

(Barros, 2014, p. 28)

Outros aspectos e dimensões disciplinares.

São ainda dimensões fundamentais de todo campo disciplinar, a organização de um aporte teórico e de um método pelo qual ele se viabilize, e a construção discursiva, pela qual ganha expressão. Segundo BARROS (2014), essas dimensões, tais quais os aspectos tratados anteriormente (singularidade, interdisciplinaridade e intradisciplinaridade), constituem-se como parte indispensável de qualquer campo disciplinar.

Por fim, o autor nos apresenta outro conceito fundamental, que caracteriza um campo disciplinar, que é a rede humana que o compõe. Esta é formada por todos aqueles que praticam o saber de determinado campo disciplinar, a partir de suas práticas e produções, e que ocupam determinado lugar no seio daquela disciplina específica, seja lugar institucional ou simbólico, formando uma comunidade científica. A partir da constituição da “rede humana”, que é permeada por instituições e grupos específicos, estabelecem-se os lugares de fala naquela disciplina.

Primeira conclusão.

Uma disciplina é um campo de saber histórico e socialmente construído, e para se constituir como tal, imprescinde de algumas características, como um campo de interesse particular, que lhe confere identidade, ou seja, a distingue de outras disciplinas, e de uma teoria e de um método. Este dois aspectos, teoria e método, são mutáveis, não resumem-se a um e estabelecem-se a partir das discussões no interior da própria disciplina.

Alerta-nos, BARROS (2014), que todo campo disciplinar, para se estabelecer como tal, busca na interdisciplinaridade elementos pelos quais possa expandir-se. Ao passo que delimita seu território, fortalece-se no diálogo com outros campos de saber, enriquecendo o seu aporte teórico argumentativo. Ao mesmo tempo, tende a intradisciplinaridade, formando subespecializações em seu interior. Um bom exemplo, são as diversas ramificações da História, tais como os estudos específicos da História Militar, da Micro-História, entre outros.

Para além das teorias e dos métodos próprios, cada disciplina estabelece também práticas discursivas que lhe são específicas e que são partilhadas por todo o corpo de legítimos praticantes daquele campo disciplinar.

Por fim, BARROS (2014) aponta o conceito de rede humana, para caracterizar a formação da comunidade científica que se forma a partir daquele campo disciplinar específico. É por meio desta comunidade de interesses comuns que partem as produções de determinada disciplina e, de onde, dobram-se os olhares sobre si, constituindo o seu próprio processo histórico de desenvolvimento.

Teoria e Metodologia.

No segundo tópico do primeiro capítulo, “Teoria, o que é isso?“, BARROS (2014) adentra em questões um pouco mais específicas. A partir da definição do que é “teoria”, o autor destaca três níveis em que essa discussão pode se dar. Primeiro, a “teoria” enquanto campo de estudos, por exemplo, quando falamos em Teoria da História, Teoria do Direito, Teoria Econômica, etc. Em seguida, o autor fala em “teoria” como um modelo ou sistema de explicação para determinado assunto. Um historiador, por exemplo, pode desenvolver uma teoria, que aliás poderá lhe ser muito própria, sobre nazismo, ou sobre fascismo ou mesmo a respeito de qualquer outro assunto, como as causas de uma guerra, entre outros. Neste caso, estaríamos tratando de “teoria” como um modelo ou sistema explicativo para determinado tema. E, por fim, BARROS (2014) nos fala sobre “teoria” enquanto uma forma de enxergar o mundo. Nesse terceiro nível de compreensão, a teoria assume-se como um paradigma para compreensão da realidade.

Dizíamos atrás que a “Teoria é uma Visão de Mundo”, e que, neste terceiro nível de discussão, a teoria corresponde a certa maneira de “ver” e de pensar as coisas.

Barros, 2014, p. 47.

Seguindo este raciocínio, podemos, então, em termos práticos, inferir que uma teoria é uma determinada “maneira de ver” o mundo, da qual pesquisadores ou estudiosos de um campo disciplinar, se valem para desenvolver o seu processo de conhecimento sobre um objeto de estudos qualquer. Nesse sentido, teoria aqui, não é entendida como o resultado, mas como o meio para construção de um conhecimento. Assim, o conhecimento advindo da perspectiva de uma teoria, é construído de forma processual, a partir do uso da razão e mediado por meio de conceitos que, em última instância, embasam aquela teoria.

É uma determinada teoria – uma certa maneira de ver as coisas – e seus instrumentos fundamentais, os conceitos, o que nos possibilita formular uma determinada leitura da realidade histórica e social, enxergar alguns aspectos e não outros, estabelecer conexões que não poderiam ser estabelecidas sem os mesmos instrumentos teóricos de que nos valemos.

Barros, 2014, p. 64.

Avançando em suas reflexões, BARROS (2014), indica-nos a aliada inseparável da Teoria: a Metodologia. Ao passo que a primeira refere-se à ação de “ver” as coisas de determinada maneira, a segunda, a Metodologia, está associada à ação de “fazer” as coisas de determinada maneira.

Assim, enquanto a “teoria” refere-se a um “modo de pensar” (ou de ver), a “metodologia” refere-se a claramente um “modo de fazer”. Esses dois verbos – “ver” e “fazer” – constituem os gestos fundamentais que definem, respectivamente, Teoria e Metodologia.

Barros, 2014, p.67

Conforme Barros (2014), Teoria e Medotologia intrelaçam-se como pilares na construção do conhecimento científico. A teoria imprescinde da metodologia, e esta, sem o devido aporte teórico, torna-se mero fazer mecânico. Na prática científica, não há uma hierarquização de importância entre teoria e metodologia, ambas formam um elo indissociável ao trabalho do pesquisar. Ao passo que a metodologia pode retoragir sobre as escolhas teóricas do pesquisar, a teoria também condiciona, em determinados sentidos, as suas escolhas metodológicas.

Par conclusão deste breve resumo, palavras sintetizadoras do próprio autor:

A pesquisa em História, e a sua posterior concretização em escrita da História (isto é, a apresentação dos resultados da pesquisa em forma de texto) envolvem necessariamente este confronto interativo entre teoria e metodologia. O ponto de partida teórico, naturalmente, corresponde à uma determinada maneira como vemos o processo histórico (porque há muitas). [Dessa forma] Podemos alicerçar nossa leitura da história na ideia de que esta é movida pela “luta de classes” (…) Mas se quisermos identificar essa “luta de classes” na documento que constituímos para examinar este ou aquele período histórico específico, teremos de nos valor de procedimentos técnicos e metodológicos especiais (…) De igual maneira, se acreditamos que as condições econômicas e materiais determinam em alguma instância a vida social e as superestruturas mentais e jurídicas de uma determinada comunidade humana historicamente localizada (…) deveremos selecionar ou constituir metodologias e técnicas capazes de captar os elementos que caracterizam esta vida material [pela escolha de outros métodos].

Barros, 2014, p. 74

Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais. Quadro de citações.

PáginaCitação
BARROS, 2014, p. 21Os objetos da história – isto é, o seu “campo de interesse” – em que pese que pareçam coincidir em um primeiro momento com os objetos possíveis das demais ciências sociais e humanas, serão sempre objetos “historicizados”, “temporalizados”, marcados por uma atenção à mudança em alguns de seus níveis”
BARROS, 2014, p. 28Essa tendência ao desdobramento interno e à crescente especialização – que se apresenta como uma característica de praticamente todos os “campos disciplinares” no período contemporâneo – tem sido um aspecto inerente à história da civilização ocidental, sobretudo a partir da Modernidade, o que não impede que os efeitos mais criticáveis do hiperespecialismo sejam constantemente compensados pelos movimentos interdisciplinares e transdiciplinares, voltados para uma “religação dos saberes” em um mundo no qual os campos de produção do conhecimento vivem a constante ameaça do isolamento.
BARROS, 2014, p. 47Dizíamos atrás que a “Teoria é uma Visão de Mundo”, e que, neste terceiro nível de discussão, a teoria corresponde a certa maneira de “ver” e de pensar as coisas.
BARROS, 2014, p. 64É uma determinada teoria – uma certa maneira de ver as coisas – e seus instrumentos fundamentais, os conceitos, o que nos possibilita formular uma determinada leitura da realidade histórica e social, enxergar alguns aspectos e não outros, estabelecer conexões que não poderiam ser estabelecidas sem os mesmos instrumentos teóricos de que nos valemos.
BARROS, 2014, p. 67Assim, enquanto a “teoria” refere-se a um “modo de pensar” (ou de ver), a “metodologia” refere-se a claramente um “modo de fazer”. Esses dois verbos – “ver” e “fazer” – constituem os gestos fundamentais que definem, respectivamente, Teoria e Metodologia.
BARROS, 2014, p. 74A pesquisa em História, e a sua posterior concretização em escrita da História (isto é, a apresentação dos resultados da pesquisa em forma de texto) envolvem necessariamente este confronto interativo entre teoria e metodologia. O ponto de partida teórico, naturalmente, corresponde à uma determinada maneira como vemos o processo histórico (porque há muitas). [Dessa forma] Podemos alicerçar nossa leitura da história na ideia de que esta é movida pela “luta de classes” (…) Mas se quisermos identificar essa “luta de classes” na documento que constituímos para examinar este ou aquele período histórico específico, teremos de nos valor de procedimentos técnicos e metodológicos especiais (…) De igual maneira, se acreditamos que as condições econômicas e materiais determinam em alguma instância a vida social e as superestruturas mentais e jurídicas de uma determinada comunidade humana historicamente localizada (…) deveremos selecionar ou constituir metodologias e técnicas capazes de captar os elementos que caracterizam esta vida material [pela escolha de outros métodos].

Referência:

BARROS, José D’Assunção, Teoria da História: Princípios e conceitos fundamentais. vol. 1. 5ª edição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2014.

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A Revolução Francesa, de Albert Soboul. https://historiaeatualidades.com.br/2018/07/20/resumo-da-introducao-do-livro-a-revolucao-francesa-de-albert-soboul-as-causas-da-revolucao/ https://historiaeatualidades.com.br/2018/07/20/resumo-da-introducao-do-livro-a-revolucao-francesa-de-albert-soboul-as-causas-da-revolucao/#comments Fri, 20 Jul 2018 11:49:55 +0000 https://richardabreu.com.br/?p=1688 A Revolução Francesa, de Albert Soboul, publicado no Brasil pela editora Difel, em 1976, como parte da coleção Saber Atual. O autor traça um panorama completo da Revolução Francesa, movimento revolucionário que selou o fim da feudalidade e princípio de um nova era, com a difusão dos valores liberais propagados pelo Iluminismo. Na introdução de seu livro, o autor dispensa especial atenção às causas profundas que levaram a França do século XVIII à revolução, estabelecendo um elo entre diversas correntes historiográficas que trataram do assunto. Aqui oferecemos um breve resumo da introdução do livro de Soboul, certos de contribuir com a divulgação da obra, tão fundamental para compreensão de um dos capítulos mais importantes da história da humanidade.

As causas e os caráteres da Revolução Francesa

Já na introdução de seu livro, Albert Soboul discorre sobre as causas da Revolução Francesa. Salienta-nos, o autor, as características que fizeram a revolução na França distinta das demais revoluções burguesas que a antecederam. Ao ressaltar a Revolução Francesa como propulsora do fim do feudalismo, aponta as características peculiares que a distingue dos demais movimentos revolucionários europeus daquela época:

Sua característica essencial é ter realizado a unidade nacional do país por meio da destruição do regime senhorial e das ordens feudais

(….)

O fato de ter chegado, finalmente, ao estabelecimento de uma democracia liberal particulariza ainda a sua significação histórica. Deste duplo ponto de vista, e sob o ângulo da história mundial, ela merece ser considerada o modelo clássico da revolução burguesa.

(SOBOUL, 1976, p. 7)

Cabe observar, que as condições que fomentaram as revoluções burguesas em diversas partes da Europa, de certa forma, foram as mesmas também na França: ascensão da classe burguesa por meio da crescente força do capital. Porém, especificidades no interior da sociedade francesa do Antigo Regime, a particularizam em relação aos demais movimentos europeus.

Sugestão: Compre o livro A Revolução Francesa, de Albert Soboul, na Amazon.

Assim, o autor analisa que mesmo as causas profundas da revolução devem ser perquiridas não só “nas contradições da antiga sociedade, obstáculo ao desenvolvimento dos novos meios de produção e de troca” — sem dúvida, condicionantes do movimento revolucionário francês, as  “revoluções neerlandesas, desde o fim do século XVI, e inglesa do século XII, já o tinham demostrado” –, mas também “nos traços específicos da sociedade francesa do Antigo Regime”.

As conjunturas e estruturas sociais da França

Em seguida, Albert Soboul passa a traçar um panorama das estruturas e conjunturas sociais da sociedade francesa pré-revolução, apontando o primeiro passo para a desestabilização do Antigo Regime: as contradições internas de suas diversas ‘castas’, sobretudo, evidentes no segmento da nobreza. A classe dos nobres era sobremaneira fragmentada. Embora possuidora de privilégios, era o poder econômico que fazia-se preponderante para os membros desta classe. Assim, em seu seio, evidenciava-se diferenças profundas entre nobres ricos e aqueles despossuídos de riqueza. A insatisfação destes últimos, abriu espaço para uma crescente onda de descontentamento contra a monarquia, surgindo, então, o germes da revolução que a burguesia concretizaria. Na historiografia, sobretudo na palavras de Georges Lefebvre, fala-se em “revolução aristocrática”, termo que o Soboul refuta pela ambiguidade, dada as reivindicações da nobreza em contraste com seu genuíno interesse em manter para si os privilégios que a ordem vigente garantia.

“Revolução aristocrática… o expressão parece ambígua. Se a nobreza (e seus registros de queixas o ilustraram logo após) admitia um regime constitucional e o voto do imposto pelos Estados gerais, exigia a entrega da administração aos Estados provinciais eletivos (Estados gerais e Estados provinciais que ela dominaria graças à manutenção de sua estrutura aristocrática), se se mostrava ciosa de liberdade individual, estava longe de admitir a igualdade fiscal, era unânime quanto à conservação dos direitos senhoriais. Não pode subsistir nenhuma dúvida: a aristocracia encetou a luta contra o absolutismo para restabelecer a sua preponderância política e salvaguardar privilégios sociais ultrapassados — luta que ala prosseguiu logicamente até à contra-revolução.

(SOBOUL, 1976, p. 14)

A burguesia, por sua vez, longe de ser uma classe homogênea, era formada por diversos estamentos da sociedade francesa. Integrava o Terceiro Estado, que abrigava, além das diversas camadas da classe burguesa, os despossuídos dos meios de produção, incluindo-se, entre eles, o campesinato.

Que a burguesia tenha dirigido a Revolução, é hoje verdade evidente. Deve-se constatar ainda que ela não constituía, na sociedade do século XVIII, uma classe homogênea. Algumas de suas frações estavam integradas nas estruturas do Antigo Regime, participando em variados graus dos privilégios da classe dominante: quer pela fortuna fundiária e pelos direitos senhoriais, quer por pertencer ao aparelho estatal, quer pela direção das formas tradicionais das finanças e da economia (SOBOUL, 1976, p. 16).

Adiante, o autor aponta que todos os elementos do Terceiro Estado foram envolvidos pela revolução, porém, muito menos por uma questão de consciência de classe do que premidos pelas circunstâncias. Falando das categorias populares da sociedade francesa pré-revolução, Soboul assevera:

O ódio à aristocracia, a oposição irredutível aos “grossos” e aos ricos foram os fermentos de unidade das massas laboriosas. Quando as más colheitas e a crise econômica que delas resultava, as puseram em movimento, elas não se ordenaram como classe distinta, mas como associadas aos artesanato, atrás da burguesia: foi assim que se aplicaram à antiga sociedade os golpes mais eficazes. Mas esta vitória das massas populares não poderia ser senão “uma vitória burguesa: a burguesia só aceitou a aliança popular contra a aristocracia porque as massas a ela se subordinaram. Em caso contrário, a burguesia teria verossimilmente renunciado, como ocorreu no século XIX na Alemanha e, em menor escala, na Itália, ao apoio de aliados julgados demasiado perigosos.

(SOBOUL, 1976, p. 20)

As questões econômicas

Para Soboul, em que pese as causas profundas da Revolução Francesa, que situam-se no seio das estruturas sociais do Antigo Regime, a Revolução, como estopim, nasceu de uma crise econômica. O século XVIII atingiu o ápice de sua prosperidade nos finais dos anos sessenta e começo dos anos setenta. A partir de 1778 entrou em declínio e culminou em profunda crise em 1887:

O Século XVIII foi bem um século de prosperidade; seu apogeu econômico situa-se no fim dos anos Sessenta e no começo dos anos Setenta: “O esplendor de Luís XV.” Depois de 1778, teve início “o declínio de Luís XVI”, período de contração, a seguir de regressão, coroada em 1787 por uma crise cíclica geradora de miséria e de distúrbios.

(SOBOUL, 1976, p. 24)

A fome, radicalizada pela alta dos preços no período pré-revolucionário e agravada pelo crescimento demográfico das cidades, com crescente fluxo de camponeses para os centros urbanos, empurrou as massas paro movimento revolucionário em 1789:

O custo da vida popular foi gravemente afetado pela alta dos preços: com os cereais aumentando mais que todo o resto, foi o povo o mais duramente atingido. À véspera de 1789, a parte do pão no orçamento popular tinha alcançado 58% por motivo da alta geral; em 1789 atingiu 88%. Restavam apenas 12% do rendimento para as demais despesas. A alta dos preços poupava as categorias abastadas, sobrecarregava o povo.

(SOBOUL, 1976, p. 26)

A crise econômica na França do século XVIII foi se consolidando a partir de sucessivos fatos que a tornavam cada vez mais abismal. No campo, os lucros da produção do vinho, praticamente único produto comercializado, declinou devido à queda do preço do produto impulsionada pela alta produção. O comércio rural, que se fazia essencial à produção industrial se contraiu e em 1788 o resultados da colheita foi desastrosa, levando a significativo aumento do desemprego e baixa dos salários, aumentando o fluxo de imigrantes para as cidades, que já sentia os efeitos da baixa produção industrial. Soma-se a isto as vultuosas despesas do governo com a guerra de independência na América. Configurava-se as condições para a revolução e a burguesia encontrou o espaço para imprimir o movimento de derrubada do Antigo Regime, empurrada pela massa em desesperada miséria, força motriz da Revolução. Com a palavra, Albert Soboul:

As irredutíveis contradições da sociedade do Antigo Regime tinham posto havia muito a Revolução na ordem do dia. As flutuações econômicas e demográficas, geradoras de tensão e que, nas condições do tempo, escapavam a toda ação governamental, criaram uma situação revolucionária. Contra um regime cuja classe dirigente era impotente para defender, levantou-se a imensa maioria da população, confusa ou conscientemente. Em 1988, a crise nacional passou de flor a fruto (…) A penúria e a carestia mobilizaram as massas rurais e citadinas que, muito naturalmente, imputaram a responsabilidade de seus males às classes dominantes e às autoridades governamentais. Dizimeiros e senhores que recolhiam o imposto das searas, dispondo de grandes quantidades de cereais, como os negociantes de trigo, os moleiros e os padeiros, eram acusados de açambarcamento (…) A crise econômica, se não criou, contribuiu porém para agravar a crise da monarquia: as dificuldades financeiras deram ensejo à oposição política (…) A burguesia, elemento dirigente do Terceiro Estado, a partir daí empunhou as rédeas. Seus fins eram revolucionários: destruir o privilégio aristocrático, estabelecer a igualdade civil numa sociedade sem ordem nem corpos. Não obstante, pretendia conservar-se dentro de um estrito legalismo. Mas foi em breve empurrada para a frente, na ação revolucionária, pelas massas populares, verdadeira força motriz, mantidas em boa disposição por muito tempo ainda pela contribuição de suas próprias reivindicações e pela crise econômica que persistiu até meados de 1790.

(SOBOUL, 1976, p. 28)
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Resumo do livro “O que é história”, de Vavy Pacheco Borges. https://historiaeatualidades.com.br/2018/03/19/resumo-resenha-do-livro-o-que-e-historia-de-vavy-pacheco-borges/ https://historiaeatualidades.com.br/2018/03/19/resumo-resenha-do-livro-o-que-e-historia-de-vavy-pacheco-borges/#comments Mon, 19 Mar 2018 18:43:34 +0000 https://richardabreu.com.br/?p=955 Resumo do livro “O que é história”, de Vavy Pacheco Borges.

O que é História, de Vavy Pacheco Borges, é um pequeno clássico da coleção “Primeiros passos” da extinta editora Brasilense, publicado há quase trinta anos, mas que por sua excelência, ainda hoje habita citações em artigos acadêmicos e listas de livros obrigatórios para estudantes que iniciam-se no estudo da História. É um livro de leitura obrigatória para todos queiram introduzir-se no assunto de forma simples e direta.

O pequeno opúsculo resume-se a oitenta e oito páginas, organizadas em dois capítulos principais: A história da História e A História hoje em dia, além de apêndices finais sobre A História no Brasil e Indicações para Leitura, que complementam e aprofundam o assunto.

livro completo de Vavy Pacheco Borges, O que é história, está disponível em sua versão original na Amazon Brasil, em versões impressa e digital, ao custo de R$34,00 e R$9,90 respectivamente.

A história da História

Desde sempre o homem sentiu necessidade de conhecer e explicar a si mesmo as próprias origens, mas os registros de uma história temporal, tal qual a conhecemos hoje, só se fizeram presentes a partir do século VI a.C. Antes disso, porém, o homem já utilizava-se de meios para contar sua ‘história’ e a forma encontrada para tanto era fazendo uso da narração mitológica. O mito é uma forma de pensamento primitivo que guarda suas próprias lógicas e coerências na narrativa de histórias sobrenaturais, que envolvem deuses e personagens semi-humanos e faz uso de tais alegorias, para explicar as origens do universo, do cosmos, das sociedades e do próprio homem.

Em geral o mito é visto como um exemplo, um precedente, um modelo para as outras realidades. Ele é sempre aplicado a situações concretas. Existem inúmeros mitos da criação do mundo (mitos cosmogônicos) que são vistos como exemplo de toda situação criadora. As sociedades são mostradas como tendo origem, geralmente, em lutas entre as diferentes divindades. (p. 12).

(BORGES, p.12)

Com o surgimento da História, a partir do século V ou VI a. C, a narração mítica não deixa de existir, a bem da verdade, está presente até os dias atuais. Mas deixa de ser a única explicação do passado do homem, passando a coexistir com a História, ou seja, uma abordagem temporal do passado. Foi Heródoto de Halicarnasso, o primeiro usar o termo no sentido de pesquisa, investigação, tendo registrado, em sua obra mais antiga: “Eis aqui a exposição da investigação realizada por Heródoto de Halicarnasso para impedir que as ações realizadas pelos homens se apaguem com o tempo”. A atitude de Heródoto, ao registrar as ações realizadas pelo homem, demonstram uma mudança de perspectiva de seus contemporâneos em relação ao tempo. O interesse volta-se para explicações sobre um tempo concreto, passível de entendimento objetivo e, principalmente, voltado para a sua realidade mais próxima.

Percebe-se, portanto, que os historiadores estão ligados à sua realidade mais imediata, espelhando a preocupação com questões do momento. Não vemos mais uma preocupação com uma origem distante, remota, atemporal (como existia no mito), mas sim a tentativa de entender um momento histórico concreto, presente ou proximamente passado. Há uma narração temporal cronológica, referente agora a uma realidade concreta. Não procuram mais conhecer uma realidade atemporal, mas a realidade específica que vivem, a realidade de um determinado tempo e um determinado espaço.

(BORGES, p. )

A medida que a narrativa mítica cede espaço à investigação histórica, sob os auspícios do Império Romano, a história adquiri uma função mais pragmática e passa a servir à exaltação dos feitos de Roma sobre as vastas áreas dominadas.

A cultura romana é, em grande parte, herdeira da cultura grega. Às características da história na Grécia, os romanos acrescentam sobretudo uma noção utilitária, pragmática: a história vai exaltar o papel de Roma no mundo, servindo a seu imperialismo.

(BORGES, p. )

Com a desestruturação do Império, a partir do século V d.C., a Igreja ganhou relevo nos espaços antes ocupados por Roma, fazendo surgir, assim, um novo olhar para a história, que passa a ter uma essência teológica, baseada em uma visão cristã como fundamento e justificativa. Assim, o marco temporal da contagem do tempo torna-se o nascimento de Cristo, e a história ganha uma perspectiva temporal linear, dividida cronologicamente em antes de Cristo (a.C) e depois de Cristo (d.C). O fim último da humanidade é a salvação e a Igreja torna-se a responsável pela orientação da humanidade ao seu desígnio. Com Santo Agosto, introduz-se uma visão sobrenatural como explicação da realidade, mas não há um regresso ao mito, como nos tempos antigos, já que a própria vinda do Cristo, enviado por Deus, é fato datado e marcado temporalmente dentro de uma realidade histórica objetiva. Os séculos iniciais da Idade Média são marcados por uma significativa regressão cultural, onde somente os clérigos dominam a leitura e a escrita, reduzindo as fontes históricas às biografias da vida de santos.

Com o declínio da Idade Média e o alvorecer da expansão comercial, surge uma nova forma de pensar e enxergar o mundo, não mais baseado na fé cristã, mas na razão. O humanismo traz o homem para o centro atenções e renasce o interesse pela cultura e erudição greco-romanos. Surge então correntes filosóficas que não tardarão a suplantar as tradições cristãs medievais por meio de um ávido interesse em investigar o mundo e o passado sob o ponto de vista da razão, uma forma não teológica de investigar a realidade.

Durante o Renascimento, a cultura europeia ocidental, desprezando os dez séculos medievais, procura retomar a Antiguidade Grego-romana, seus valores, sua arte, etc. Isso vai ter consequências importantíssimas para a história. Com a preocupação pelos textos antigos e por sua exatidão, com pesquisa e a formação de coleções de moedas, de objetos de arte, de inscrições antigas, vai ser lançado um enorme material para a reconstituição desse passado. Do século XVI ao XIX vão-se multiplicar as técnicas para reunir, preparar e criticar toda essa documentação, que fornece os dado e os elementos para a interpretação histórica.

(BORGES, p. )

Os humanistas, a partir da revisão de documentos históricos, reviverão uma tradição crítica nascida com os pensadores da antiguidade clássica, fazendo surgir, da apuração de suas técnicas, estudos especializados, tais como a epigrafia, a numismática, silografia, heráldica e outras área de domínio da erudição. A partir do século XVIII, com a total falência do feudalismo, após Revolução Francesa, fortalece-se a corrente filosófica dos pensadores iluministas, que voltam seu olhar para a história como o avanço linear e progressivo da razão humana. No século XIX surgem as nações modernas, a partir do princípio político liberal e inicia-se o predomínio dos historiadores conhecidos como românticos, que deitam sobre a história um olhar nostálgico e sentimental, afim de resgatar o espírito da nação.

No século XIX, temos inúmeros conflitos nacionalistas. Nesse sentido, os Estados em organização e estabilização (França e Inglaterra) e os Estados ainda em processo de unificação (como a Alemanha e a Itália) vão estimular o interesse pelo estudo da história nacional.

(…)

Dentro dessa visão nacionalista é que se encaixam alguns historiadores que são classificados como românticos, pois, dotados de uma certa contemplação sentimental de história, procuram uma volta ao passado cheia de nostalgia. Para eles, a história não pode ser feita como uma análise fria: o passado deve ser ressuscitado em todo o seu ambiente próprio.

(BORGES, p. )

Com Leopold von Ranke, no século XIX, surge a ideia de “história ciência”. Com a “escola científica alemã”, da qual Rank será o maior expoente, os historiadores aspiram tratar a história com o mesmo rigor científico das ciências naturais. Tal linha de pensamento dá forças ao positivismo histórico.

O positivismo como filosofia surge ligado às transformações da sociedade europeia ocidental, na implantação da revolução industrial. Para ele, cabe à história um levantamento científico dos fatos, sem procurar interpretá-los, deixando à sociologia a sua interpretação. Para os historiadores positivistas, os fatos levantados como que se encadeiam mecanicamente e necessariamente, numa relação determinista de causa e consequência (ou seja, efeitos). A história por eles escrita é uma sucessão de acontecimentos isolados, relatando sobretudo os feitos políticos de grandes heróis, os problemas dinásticos, as batalhas, os tratados diplomáticos, etc.

(BORGES, p. )

Na esteira das transformações sociais que vive a sociedade europeia pós-revolução industrial, surgem dois pensadores que darão início a um novo movimento histórico, o materialismo histórico, encabeçado por Karl Marx e Frederick Engles. Subvertendo o princípio da filosofia idealista de Hegel, apontam as condições materiais da humanidade como o fator primordial de desenvolvimento da história, sobretudo em sua relação dialética de classes. E isso torna-se também uma reação ao modo de conceber a história pela escola científica alemã.

O materialismo histórico mostra que os homens, para sobreviverem, precisam transformar a natureza, o mundo em que vivem (…) todas as outras relações que os homens estabelecem entre si dependem dessas relações para a produção da vida, não sob uma forma de dependência mecânica, direta e determinante, mas sob forma de condicionamento. O ponto de partida do conhecimento da realidade são as relações que os homens mantêm com a natureza e com os outros homens; não são as idéias que vão provocar as transformações (princípio hegeliano), mas as condições materiais e as relações entre os homens, que estas condicionam.

(…)

Essa atenção para o aspecto da produção da vida material vai começar a aparecer nos trabalhos de historiadores não marxistas: desde o início do século XX há uma reação contra a história positivista, que praticamente nada explicava, e, em sua procuração de explicação, os historiadores vão começar a levar em conta os fenômenos da produção (para eles produção = economia).

(BORGES, p. )

Em finais do século XIX e início do século XX a história ganha espaço nas universidades, adentra a este meio com uma roupagem filosófica liberal, ainda fortemente influenciada pelo positivismo. A partir do anos sessenta do século passado, há um reavivamento do materialismo histórico que até então havia sido deixado de lado pelos acadêmicos, devido à sua associação com teorias políticas dogmáticas expressas em países como a extinta URSS pós Revolução Russa.

Com o surgimento da Escola dos Annales, a história, abre o horizonte para um grande leque de assuntos que lhe interessa, superando, principalmente no meio acadêmico francês, o positivismo, seus métodos e objetos de estudo. No momento posterior à Segunda Guerra Mundial, o estudo da história ganha novos enfoques, abrindo-se a possibilidade para novas aspectos do estudo do tempo passado que não a tradicional visão eurocentrista que desde sempre predominou.

A História hoje em dia

O termo “história” encerra diversos sentidos. O livro objeto desta resenha trata, especificamente, daquele que a entende como “o passado da humanidade” e ao mesmo tempo o “estudo deste passado”, se quisermos fazer uso de duas definições emprestadas ao verbete “história”, assim expresso no dicionário Aurélio.

Para definir seu campo e objeto de atuação, os historiadores muitas vezes acrescentam ao termo “história” as palavras “acontecimento” e “conhecimento”. Assim, “história-acontecimento” ganha o sentido de que é tudo aquilo que corresponde ao passado da humanidade e “história-conhecimento” passa a designar o estudo de tal passado.

Os dois sentidos da palavra estão, pois, estreitamente ligados: os acontecimentos históricos (a história-acontecimento), são o objeto de análise do conhecimento histórico (da história-conhecimento).

(…)

Numa extensão ampla dos dois sentidos, história seria então aquilo que aconteceu (com o homem, com a natureza, com o universo, enfim) e o estudo desses acontecimentos. Tudo tem sua história, pois, sabemos que tudo se transforma o tempo todo. Mais aqui, interessam principalmente as transformações das sociedades humanas.

(BORGES, p. )

O que é e para que serve a história?

Desde o início, a história serve à humanidade como forma de lhes oferecer explicações sobre suas origens, no entanto, hoje em dia, em proximidade com outras ciências humanas, procura explicar a dimensão do homem em sociedade, sobretudo em suas transformações, sendo essa, pois a sua essência: ver a transformação humana ao longo do tempo. Assim, o tempo história é diferente do tempo que vivemos. Ao analisá-lo, o historiador buscar enxergar as transformações que se dão em curta duração de tempo, tais como as revoluções e mudanças bruscas provocadas por eventos políticos, assim como o tempo de longa duração, como as transformações sociais que se dão em longo espaço de tempo, tais como os conceitos, crenças, valores e modos de vida.

Desde sua fundação, como campo de conhecimento a história tem por pilar o conjunto de valores da sociedade europeia ocidental e isso nos remete a uma equívoca observação cronológica da história. No entanto, o tempo da história não é linear, nem se dar de forma progressiva, uma vez que toda história é história de um determinado espaço-tempo, devendo assim ser entendida.

Dizer que o processo história é contínuo não significa dizer que ele obedeça a um desenvolvimento linear: não é uma linha reta com tendência constante, inclui idas e vindas, desvio, avanços e recuos, inversões, etc. Há mesmo transformações que podem ser vistas como rupturas, pois alteram toda uma forma de viver da sociedade. É, porém, uma ruptura que foi lentamente preparada, que está sempre ligada com algo que já existia, pois não se pode admitir o surgimento de uma situação nova sem ligação com as anteriores

(BORGES, p. 12)

Toda alteração no processo história é decorrente da própria atuação do homem, assim ele é o agente de transformações da realidade em que vive e a este fim serve a história, para compreender a realidade presente que é fruto de uma construção do passado, tornando o homem apto a transformar a realidade presente por meio da percepção de que ela não é eterna ou imutável. Embora não possa prever ou calcular o futuro, pode, no presente, conhecendo o passado, delinear ações futuras.

Como disse o historiador francês, Lucien Febvre, a “história é filha do seu tempo”, pois a investigação do passado nasce da indagação dos historiadores do presente. Assim, cada busca corresponde a um interesse presente. Uma vez que o presente está em constante mutação, mudam-se também os anseios ao perquirir o passado.

Seu uso (da história), porém, tem sido uma constante pelos que detêm qualquer tipo de poder, ou mesmo o poder que advém de qualquer saber. A história como forma de conhecimento não deve servir a uma manipulação dos poderosos.

(…)

Mas, ao explicar as transformações resultantes das ações dos homens, a história leva a perceber que a situação de hoje é diferente da de ontem e procura esclarecer os “comos” e os “porquês” disso. Para os que não sabem das alterações passadas, a realidade que vivem pode parecer “eterna” ou “intransformável”, e como tal justificada. Isto leva a uma atitude passiva, à uma conformação. Ao contrário, o conhecimento dessas alterações passadas e a compreensão das condições das mesmas podem levar ao desejo e à atuação concreta em busca de outras transformações.

(BORGES, p. )

Como produzir a história?

A história é feita a partir de documentos, e é comumente entendido como únicos documentos históricos, aqueles escritos. Disso resulta que, embora o homem exista na face da terra há milhares de anos, considera-se história somente aquela a partir do surgimento da escrita, desconsiderando-se, portanto, por meio de uma divisão arbitrária, toda a produção humana antes deste evento. Embora ainda prevaleça uma forte tendência e predileção de alguns historiadores por documentos escritos, hoje qualquer produção humana pode ser entendida e aproveitada como um documento histórico, cabendo ao historiador, selecioná-los conforme os objetivos de sua investigação. No passado, sob um prisma positivista, apenas documentos oficiais eram considerados, alegando que os demais poderiam sofrer influências e apontar tendências ideológicas. No entanto, independente da fonte histórica que se escolha ou se tenha a disposição, é sempre o olhar do historiador que ditará os rumos da pesquisa:

Um historiador , ao se propor fazer uma pesquisa, já faz uma opção bem sua, ao decidir qual a realidade que ele vai estudar. Sua escolha é sempre encaminhada pela sua situação concreta. O historiador é um homem em sociedade, ele também faz parte da história que está vivendo. Escreve sua história historicamente situado, ou seja, numa determinada época, dentro de condições concretas de sua classe, sua instituição de ensino ou pesquisa, etc. Seu trabalho será condicionado tanto pelo nível de conhecimento então existente, como pelos interesses que ele possa estar defendendo, mesmo que inconscientemente.

(BORGES, p. )

A história, portanto, não é mais entendida como a simples extração de fatos do passado, mas também, está relacionada a própria interpretação do historiador e a sua perspectiva do tempo presente. A interpretação dos fatos estará sempre ligada a uma teoria, que por sua vez, é um conjunto de conceitos que forma determinada visão da realidade, tal como a investigação história será apresentada.

Infelizmente, é preciso desiludir-se de início: escrever história não é estabelecer certezas, mas é reduzir o campo das incertezas, é estabelecer um feixe de probabilidade. Não é dizer tudo sobre uma determinada realidade, mas explicar o que nela é fundamental. Nem por isso, se deve cair numa posição de relativismos absoluto em que todas as especulações interpretativas são permitidas.

(…)

Em história todas as especulações são provisórias, pois podem ser aprofundadas e revistas por trabalhos posteriores. Um saber absoluto, uma verdade absoluta não servem aos estudiosos sérios e dignos desse nome; servem aos totalitário, tanto de direita como de esquerda, que colocando-se como donos do saber e da verdade, procuram, através da explicação histórica, justificar a sua forma de poder.

(BORGES, p. )
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