Para que serve a História? Vamos falar sobre isso!
É muito comum que, em algum momento, professores de História se deparem com essa questão em sua sala de aula. “Professor, para que serve a história?“, “Professor, porque temos que estudar história?“. Infelizmente, entre muitos colegas, isso pode até ser motivo de chateação. Isso porque, muitas vezes, a impertinente pergunta surge em um contexto de desdém dos estudantes em relação aos conteúdos que vão aprender. E nestes casos, o mais comum é tergiversar, ou enveredar por explanações didáticas que, ao final, nem convencem nem estimulam a curiosidade do estudante. Perde-se, assim, uma excelente oportunidade que poderia possibilitar a ambos, estudantes e professores, encontrar algum significado para a suas práticas.
Digo, porque muitas vezes já tive que responder a essa pergunta. E, quase sempre, para quarenta ‘rostinhos’ que pareciam, na verdade, bem menos interessados na questão, do que eu, de fato, estava em respondê-la. Mas se para alguns pode ser motivo de aborrecimento, já que muitas vezes o próprio professor encontra-se diante de um dilema que a ele próprio não saberia responder, para mim, tem sido oportunidade para tentar ressignificar sentidos. Afinal, não deveríamos, nós, professores, refletirmos também sobre porque ensinamos História?
Relembrando Marc Bloch
Diante de questões difíceis, os mais sensato é recorrer a quem por elas passou primeiro. E neste caso, seria oportuno voltarmo-nos para quem, de forma mais brilhante, tratou do assunto. Na primeira metade do século XX, em seu Apologia da História ou o Ofício do Historiador, antes de ser fuzilado por um pelotão nazista, Bloch discorreu a seu filho sobre o sentido da história. Falando, assim, com a simplicidade e clareza de quem “fala aos doutos e aos escolares”, foi bem sucedido em fazer-nos entender sobre a importância do tempo passado, mas sobretudo, de suas imbricações com o tempo presente. Bloch libertou a História da masmorra do passado, para fazê-la dialogar com o presente também!
Assim, desde Bloch e seus companheiros dos Annales, não há mais razão para nos prendermos a uma história meramente factual, memorativa. Um História reduzida a uma extensa lista de datas e fatos a serem decorados, sem nenhum sentido para a vida de quem a esta tarefa está submetido. No caso, nossos estudantes! Vista assim, a história pode parecer mesmo um amontoado de velharias, sem importância alguma para nossas vidas. Portanto, completamente dispensável. Ainda mais, se pensarmos em irrequietas criaturas (e aqui me refiro novamente aos nossos estudantes), cuja qualquer informação está ao alcance dos dedos que se movem desenvoltos sobre a touch screen de um Smartphone.
Mas afinal, serve para alguma coisa a História?
Sim! A História é mãe de nossas consciências coletivas. É ela que nos faz lembrar a todo instante de quem somos, por que estamos e aqui, e em alguns casos, até mesmo para onde estamos indo. De onde viriam nossas referências para todas as nossas construções sociais, e em alguns casos, para a desconstrução de algumas, se não fosse o resgate de nossas memórias e de nossa história?
Ela não é, todavia, a bula para um futuro idílico, mas um mapa para o passado, que parte do presente. É de onde estamos que vamos ao que fomos e entendemos melhor o que somos! Sem isso, pouco sentido faz reconstituir fatos, datar eventos ou deliciar-se com as amenidades que ela pode nos proporcionar, tais como, descobrir que o nome de Dom Pedro II1 era alarmantemente grande*, ou que ele, quando gritou o célebre “independência ou morte”, estava esvaindo-se em uma calamitosa diarreia.
É necessário, então, que se faça a devida reflexão, não somente sobre o passado, mas também sobre o presente, para que essas duas instâncias (passado e presente) possam, enfim, interagir em diálogo. Isso, talvez, traga o sentido para a História que nossos estudantes tanto anseiam. E que nós, professores, deveríamos compreender!
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- O nome completo de Dom Pedro II era Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga ↩︎