Resumo do livro “O que é história”, de Vavy Pacheco Borges.

Resumo do livro “O que é história”, de Vavy Pacheco Borges.

O que é História, de Vavy Pacheco Borges, é um pequeno clássico da coleção “Primeiros passos” da extinta editora Brasilense, publicado há quase trinta anos, mas que por sua excelência, ainda hoje habita citações em artigos acadêmicos e listas de livros obrigatórios para estudantes que iniciam-se no estudo da História. É um livro de leitura obrigatória para todos queiram introduzir-se no assunto de forma simples e direta.

O pequeno opúsculo resume-se a oitenta e oito páginas, organizadas em dois capítulos principais: A história da História e A História hoje em dia, além de apêndices finais sobre A História no Brasil e Indicações para Leitura, que complementam e aprofundam o assunto.

livro completo de Vavy Pacheco Borges, O que é história, está disponível em sua versão original na Amazon Brasil, em versões impressa e digital, ao custo de R$34,00 e R$9,90 respectivamente.

A história da História

Desde sempre o homem sentiu necessidade de conhecer e explicar a si mesmo as próprias origens, mas os registros de uma história temporal, tal qual a conhecemos hoje, só se fizeram presentes a partir do século VI a.C. Antes disso, porém, o homem já utilizava-se de meios para contar sua ‘história’ e a forma encontrada para tanto era fazendo uso da narração mitológica. O mito é uma forma de pensamento primitivo que guarda suas próprias lógicas e coerências na narrativa de histórias sobrenaturais, que envolvem deuses e personagens semi-humanos e faz uso de tais alegorias, para explicar as origens do universo, do cosmos, das sociedades e do próprio homem.

Em geral o mito é visto como um exemplo, um precedente, um modelo para as outras realidades. Ele é sempre aplicado a situações concretas. Existem inúmeros mitos da criação do mundo (mitos cosmogônicos) que são vistos como exemplo de toda situação criadora. As sociedades são mostradas como tendo origem, geralmente, em lutas entre as diferentes divindades. (p. 12).

(BORGES, p.12)

Com o surgimento da História, a partir do século V ou VI a. C, a narração mítica não deixa de existir, a bem da verdade, está presente até os dias atuais. Mas deixa de ser a única explicação do passado do homem, passando a coexistir com a História, ou seja, uma abordagem temporal do passado. Foi Heródoto de Halicarnasso, o primeiro usar o termo no sentido de pesquisa, investigação, tendo registrado, em sua obra mais antiga: “Eis aqui a exposição da investigação realizada por Heródoto de Halicarnasso para impedir que as ações realizadas pelos homens se apaguem com o tempo”. A atitude de Heródoto, ao registrar as ações realizadas pelo homem, demonstram uma mudança de perspectiva de seus contemporâneos em relação ao tempo. O interesse volta-se para explicações sobre um tempo concreto, passível de entendimento objetivo e, principalmente, voltado para a sua realidade mais próxima.

Percebe-se, portanto, que os historiadores estão ligados à sua realidade mais imediata, espelhando a preocupação com questões do momento. Não vemos mais uma preocupação com uma origem distante, remota, atemporal (como existia no mito), mas sim a tentativa de entender um momento histórico concreto, presente ou proximamente passado. Há uma narração temporal cronológica, referente agora a uma realidade concreta. Não procuram mais conhecer uma realidade atemporal, mas a realidade específica que vivem, a realidade de um determinado tempo e um determinado espaço.

(BORGES, p. )

A medida que a narrativa mítica cede espaço à investigação histórica, sob os auspícios do Império Romano, a história adquiri uma função mais pragmática e passa a servir à exaltação dos feitos de Roma sobre as vastas áreas dominadas.

A cultura romana é, em grande parte, herdeira da cultura grega. Às características da história na Grécia, os romanos acrescentam sobretudo uma noção utilitária, pragmática: a história vai exaltar o papel de Roma no mundo, servindo a seu imperialismo.

(BORGES, p. )

Com a desestruturação do Império, a partir do século V d.C., a Igreja ganhou relevo nos espaços antes ocupados por Roma, fazendo surgir, assim, um novo olhar para a história, que passa a ter uma essência teológica, baseada em uma visão cristã como fundamento e justificativa. Assim, o marco temporal da contagem do tempo torna-se o nascimento de Cristo, e a história ganha uma perspectiva temporal linear, dividida cronologicamente em antes de Cristo (a.C) e depois de Cristo (d.C). O fim último da humanidade é a salvação e a Igreja torna-se a responsável pela orientação da humanidade ao seu desígnio. Com Santo Agosto, introduz-se uma visão sobrenatural como explicação da realidade, mas não há um regresso ao mito, como nos tempos antigos, já que a própria vinda do Cristo, enviado por Deus, é fato datado e marcado temporalmente dentro de uma realidade histórica objetiva. Os séculos iniciais da Idade Média são marcados por uma significativa regressão cultural, onde somente os clérigos dominam a leitura e a escrita, reduzindo as fontes históricas às biografias da vida de santos.

Com o declínio da Idade Média e o alvorecer da expansão comercial, surge uma nova forma de pensar e enxergar o mundo, não mais baseado na fé cristã, mas na razão. O humanismo traz o homem para o centro atenções e renasce o interesse pela cultura e erudição greco-romanos. Surge então correntes filosóficas que não tardarão a suplantar as tradições cristãs medievais por meio de um ávido interesse em investigar o mundo e o passado sob o ponto de vista da razão, uma forma não teológica de investigar a realidade.

Durante o Renascimento, a cultura europeia ocidental, desprezando os dez séculos medievais, procura retomar a Antiguidade Grego-romana, seus valores, sua arte, etc. Isso vai ter consequências importantíssimas para a história. Com a preocupação pelos textos antigos e por sua exatidão, com pesquisa e a formação de coleções de moedas, de objetos de arte, de inscrições antigas, vai ser lançado um enorme material para a reconstituição desse passado. Do século XVI ao XIX vão-se multiplicar as técnicas para reunir, preparar e criticar toda essa documentação, que fornece os dado e os elementos para a interpretação histórica.

(BORGES, p. )

Os humanistas, a partir da revisão de documentos históricos, reviverão uma tradição crítica nascida com os pensadores da antiguidade clássica, fazendo surgir, da apuração de suas técnicas, estudos especializados, tais como a epigrafia, a numismática, silografia, heráldica e outras área de domínio da erudição. A partir do século XVIII, com a total falência do feudalismo, após Revolução Francesa, fortalece-se a corrente filosófica dos pensadores iluministas, que voltam seu olhar para a história como o avanço linear e progressivo da razão humana. No século XIX surgem as nações modernas, a partir do princípio político liberal e inicia-se o predomínio dos historiadores conhecidos como românticos, que deitam sobre a história um olhar nostálgico e sentimental, afim de resgatar o espírito da nação.

No século XIX, temos inúmeros conflitos nacionalistas. Nesse sentido, os Estados em organização e estabilização (França e Inglaterra) e os Estados ainda em processo de unificação (como a Alemanha e a Itália) vão estimular o interesse pelo estudo da história nacional.

(…)

Dentro dessa visão nacionalista é que se encaixam alguns historiadores que são classificados como românticos, pois, dotados de uma certa contemplação sentimental de história, procuram uma volta ao passado cheia de nostalgia. Para eles, a história não pode ser feita como uma análise fria: o passado deve ser ressuscitado em todo o seu ambiente próprio.

(BORGES, p. )

Com Leopold von Ranke, no século XIX, surge a ideia de “história ciência”. Com a “escola científica alemã”, da qual Rank será o maior expoente, os historiadores aspiram tratar a história com o mesmo rigor científico das ciências naturais. Tal linha de pensamento dá forças ao positivismo histórico.

O positivismo como filosofia surge ligado às transformações da sociedade europeia ocidental, na implantação da revolução industrial. Para ele, cabe à história um levantamento científico dos fatos, sem procurar interpretá-los, deixando à sociologia a sua interpretação. Para os historiadores positivistas, os fatos levantados como que se encadeiam mecanicamente e necessariamente, numa relação determinista de causa e consequência (ou seja, efeitos). A história por eles escrita é uma sucessão de acontecimentos isolados, relatando sobretudo os feitos políticos de grandes heróis, os problemas dinásticos, as batalhas, os tratados diplomáticos, etc.

(BORGES, p. )

Na esteira das transformações sociais que vive a sociedade europeia pós-revolução industrial, surgem dois pensadores que darão início a um novo movimento histórico, o materialismo histórico, encabeçado por Karl Marx e Frederick Engles. Subvertendo o princípio da filosofia idealista de Hegel, apontam as condições materiais da humanidade como o fator primordial de desenvolvimento da história, sobretudo em sua relação dialética de classes. E isso torna-se também uma reação ao modo de conceber a história pela escola científica alemã.

O materialismo histórico mostra que os homens, para sobreviverem, precisam transformar a natureza, o mundo em que vivem (…) todas as outras relações que os homens estabelecem entre si dependem dessas relações para a produção da vida, não sob uma forma de dependência mecânica, direta e determinante, mas sob forma de condicionamento. O ponto de partida do conhecimento da realidade são as relações que os homens mantêm com a natureza e com os outros homens; não são as idéias que vão provocar as transformações (princípio hegeliano), mas as condições materiais e as relações entre os homens, que estas condicionam.

(…)

Essa atenção para o aspecto da produção da vida material vai começar a aparecer nos trabalhos de historiadores não marxistas: desde o início do século XX há uma reação contra a história positivista, que praticamente nada explicava, e, em sua procuração de explicação, os historiadores vão começar a levar em conta os fenômenos da produção (para eles produção = economia).

(BORGES, p. )

Em finais do século XIX e início do século XX a história ganha espaço nas universidades, adentra a este meio com uma roupagem filosófica liberal, ainda fortemente influenciada pelo positivismo. A partir do anos sessenta do século passado, há um reavivamento do materialismo histórico que até então havia sido deixado de lado pelos acadêmicos, devido à sua associação com teorias políticas dogmáticas expressas em países como a extinta URSS pós Revolução Russa.

Com o surgimento da Escola dos Annales, a história, abre o horizonte para um grande leque de assuntos que lhe interessa, superando, principalmente no meio acadêmico francês, o positivismo, seus métodos e objetos de estudo. No momento posterior à Segunda Guerra Mundial, o estudo da história ganha novos enfoques, abrindo-se a possibilidade para novas aspectos do estudo do tempo passado que não a tradicional visão eurocentrista que desde sempre predominou.

A História hoje em dia

O termo “história” encerra diversos sentidos. O livro objeto desta resenha trata, especificamente, daquele que a entende como “o passado da humanidade” e ao mesmo tempo o “estudo deste passado”, se quisermos fazer uso de duas definições emprestadas ao verbete “história”, assim expresso no dicionário Aurélio.

Para definir seu campo e objeto de atuação, os historiadores muitas vezes acrescentam ao termo “história” as palavras “acontecimento” e “conhecimento”. Assim, “história-acontecimento” ganha o sentido de que é tudo aquilo que corresponde ao passado da humanidade e “história-conhecimento” passa a designar o estudo de tal passado.

Os dois sentidos da palavra estão, pois, estreitamente ligados: os acontecimentos históricos (a história-acontecimento), são o objeto de análise do conhecimento histórico (da história-conhecimento).

(…)

Numa extensão ampla dos dois sentidos, história seria então aquilo que aconteceu (com o homem, com a natureza, com o universo, enfim) e o estudo desses acontecimentos. Tudo tem sua história, pois, sabemos que tudo se transforma o tempo todo. Mais aqui, interessam principalmente as transformações das sociedades humanas.

(BORGES, p. )

O que é e para que serve a história?

Desde o início, a história serve à humanidade como forma de lhes oferecer explicações sobre suas origens, no entanto, hoje em dia, em proximidade com outras ciências humanas, procura explicar a dimensão do homem em sociedade, sobretudo em suas transformações, sendo essa, pois a sua essência: ver a transformação humana ao longo do tempo. Assim, o tempo história é diferente do tempo que vivemos. Ao analisá-lo, o historiador buscar enxergar as transformações que se dão em curta duração de tempo, tais como as revoluções e mudanças bruscas provocadas por eventos políticos, assim como o tempo de longa duração, como as transformações sociais que se dão em longo espaço de tempo, tais como os conceitos, crenças, valores e modos de vida.

Desde sua fundação, como campo de conhecimento a história tem por pilar o conjunto de valores da sociedade europeia ocidental e isso nos remete a uma equívoca observação cronológica da história. No entanto, o tempo da história não é linear, nem se dar de forma progressiva, uma vez que toda história é história de um determinado espaço-tempo, devendo assim ser entendida.

Dizer que o processo história é contínuo não significa dizer que ele obedeça a um desenvolvimento linear: não é uma linha reta com tendência constante, inclui idas e vindas, desvio, avanços e recuos, inversões, etc. Há mesmo transformações que podem ser vistas como rupturas, pois alteram toda uma forma de viver da sociedade. É, porém, uma ruptura que foi lentamente preparada, que está sempre ligada com algo que já existia, pois não se pode admitir o surgimento de uma situação nova sem ligação com as anteriores

(BORGES, p. 12)

Toda alteração no processo história é decorrente da própria atuação do homem, assim ele é o agente de transformações da realidade em que vive e a este fim serve a história, para compreender a realidade presente que é fruto de uma construção do passado, tornando o homem apto a transformar a realidade presente por meio da percepção de que ela não é eterna ou imutável. Embora não possa prever ou calcular o futuro, pode, no presente, conhecendo o passado, delinear ações futuras.

Como disse o historiador francês, Lucien Febvre, a “história é filha do seu tempo”, pois a investigação do passado nasce da indagação dos historiadores do presente. Assim, cada busca corresponde a um interesse presente. Uma vez que o presente está em constante mutação, mudam-se também os anseios ao perquirir o passado.

Seu uso (da história), porém, tem sido uma constante pelos que detêm qualquer tipo de poder, ou mesmo o poder que advém de qualquer saber. A história como forma de conhecimento não deve servir a uma manipulação dos poderosos.

(…)

Mas, ao explicar as transformações resultantes das ações dos homens, a história leva a perceber que a situação de hoje é diferente da de ontem e procura esclarecer os “comos” e os “porquês” disso. Para os que não sabem das alterações passadas, a realidade que vivem pode parecer “eterna” ou “intransformável”, e como tal justificada. Isto leva a uma atitude passiva, à uma conformação. Ao contrário, o conhecimento dessas alterações passadas e a compreensão das condições das mesmas podem levar ao desejo e à atuação concreta em busca de outras transformações.

(BORGES, p. )

Como produzir a história?

A história é feita a partir de documentos, e é comumente entendido como únicos documentos históricos, aqueles escritos. Disso resulta que, embora o homem exista na face da terra há milhares de anos, considera-se história somente aquela a partir do surgimento da escrita, desconsiderando-se, portanto, por meio de uma divisão arbitrária, toda a produção humana antes deste evento. Embora ainda prevaleça uma forte tendência e predileção de alguns historiadores por documentos escritos, hoje qualquer produção humana pode ser entendida e aproveitada como um documento histórico, cabendo ao historiador, selecioná-los conforme os objetivos de sua investigação. No passado, sob um prisma positivista, apenas documentos oficiais eram considerados, alegando que os demais poderiam sofrer influências e apontar tendências ideológicas. No entanto, independente da fonte histórica que se escolha ou se tenha a disposição, é sempre o olhar do historiador que ditará os rumos da pesquisa:

Um historiador , ao se propor fazer uma pesquisa, já faz uma opção bem sua, ao decidir qual a realidade que ele vai estudar. Sua escolha é sempre encaminhada pela sua situação concreta. O historiador é um homem em sociedade, ele também faz parte da história que está vivendo. Escreve sua história historicamente situado, ou seja, numa determinada época, dentro de condições concretas de sua classe, sua instituição de ensino ou pesquisa, etc. Seu trabalho será condicionado tanto pelo nível de conhecimento então existente, como pelos interesses que ele possa estar defendendo, mesmo que inconscientemente.

(BORGES, p. )

A história, portanto, não é mais entendida como a simples extração de fatos do passado, mas também, está relacionada a própria interpretação do historiador e a sua perspectiva do tempo presente. A interpretação dos fatos estará sempre ligada a uma teoria, que por sua vez, é um conjunto de conceitos que forma determinada visão da realidade, tal como a investigação história será apresentada.

Infelizmente, é preciso desiludir-se de início: escrever história não é estabelecer certezas, mas é reduzir o campo das incertezas, é estabelecer um feixe de probabilidade. Não é dizer tudo sobre uma determinada realidade, mas explicar o que nela é fundamental. Nem por isso, se deve cair numa posição de relativismos absoluto em que todas as especulações interpretativas são permitidas.

(…)

Em história todas as especulações são provisórias, pois podem ser aprofundadas e revistas por trabalhos posteriores. Um saber absoluto, uma verdade absoluta não servem aos estudiosos sérios e dignos desse nome; servem aos totalitário, tanto de direita como de esquerda, que colocando-se como donos do saber e da verdade, procuram, através da explicação histórica, justificar a sua forma de poder.

(BORGES, p. )

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