Estão aí, como se sabe, dois candidatos à presidência, os senhores Eduardo Gomes e Eurico Dutra, e um terceiro, o senhor Getúlio Vargas, que deve ser candidato de algum grupo político oculto, mas é também o candidato popular. Porque há dois “queremos”: o “queremos” dos que querem ver se continuam nas posições e o “queremos” popular… Afinal, o que é que o senhor Getúlio Vargas é? É fascista? É comunista? É ateu? É cristão? Quer sair? Quer ficar? O povo, entretanto, parece que gosta dele por isso mesmo, porque ele é “à moda da casa”.
A Democracia. 16 set. 1945, apud GOMES, A, C.; D’ARAÚJO, M, C. Getulismo e Trabalhismo. São Paulo: Ática, 1989.
O movimento político mencionado no texto caracterizou-se por
A – reclamar a participação das agremiações partidárias.
B – apoiar a permanência da ditadura estadonovista.
C – demandar a confirmação dos direitos trabalhistas.
D – reivindicar a transição constitucional sob a influência do governante.
E – resgatar a representatividade dos sindicatos sob controle social.
Comentários da questão:
O movimento a que se refere o texto-base da questão é o “queremismo”, um movimento político social que se formou em torno da figura de Getúlio Vargas no final do Estado Novo para pedir sua permanência no poder. Logo, o gabarito da questão é a letra D. O nome do movimento vem do slogan adotado por seus partidários: “Queremos Getúlio”. Ante a possibilidade de Getúlio deixar o poder, eles reivindicavam uma Assembleia Nacional Constituinte, ou mesmo, em caso de eleições gerais, que Getúlio fosse candidato.
O Estado Novo e o Queremismo
Em 1937 Getúlio Vargas instaurou uma ditadura no Brasil desconsiderando a Constituição de 1934, promulgada em seu governo, instituído em 1930, pós-revolução. O regime de Vargas a partir de 1937, que ficou conhecido como Estado Novo, era fortemente inspirado nos regimes totalitários de direita que espalhavam-se pela Europa (Franco, na Espanha; Mussolini na Itália; e Hitler, na Alemanha).
Com a vitória das democracias liberais sobre as Potências do Eixo em 1945, a maioria desses regimes desapareceram da cena política ou enfraqueceram-se. Isso debilitou politicamente o governo de Getúlio Vargas que passou a ser pressionado pela oposição para convocação de eleições. Vargas passou a acenar para a possibilidade novas eleições, porém, como dispunha de grande prestígio junto às classes trabalhadoras, seus partidários iniciaram um movimento para pedir a sua permanência no poder. Para isso usavam o slogan “queremos Getúlio”, o que originou o nome de “queremismo”.
Os queremistas estiveram melhor representados no Rio de Janeiro, mas não foi o único movimento pró-Vargas a surgir com a perspectiva de fim do Estado Novo. Em São Paulo, pouco antes do queremismo, um outro movimento teve bastante proeminência, e fico conhecido como movimento dos “panelas vazias”, que a exemplo dos queremistas, exigiam a permanência de Vargas. Ante as manifestações de apoio, Getúlio passou a dar sinais dúbios a seus partidários, demonstrando indefinição quanto às suas pretensões de continuar ou não no poder. Porém, em outubro de 1945, ao substituir o chefe de polícia do Distrito Federal pelo seu irmão, Benjamin Vargas, teve seu gesto interpretado pelos adversários como uma manobra para manter-se no governo, o que motivou uma ação do alto comando do exército, que o depôs em 29 de outubro de 1945.
Era o fim do Estado Novo e também da Era Vargas.