O que foi a Revolução Francesa, quais foram os principais fatos dela decorrentes, em que contexto se deu, e quais as suas causas e origens. Neste publicação, abordaremos todas essas questões, em um panorama completo sobre a história da Revolução.
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Breve introdução
Em 1789 a França viveu um intenso processo de convulsão político-social que daria fim às antigas estruturas feudais do Antigo Regime. Isso faria surgir novas formas de organização política, social e econômica com base em novos valores. Eram esses, os valores liberais da burguesia, ancorados nos ideais iluministas predominantes durante o século XVIII. Foi nesse contexto que se deu a Revolução Francesa, cujo efeitos foram sentidos para muito além das fronteiras da França. Suas consequências foram tão profundas, que desencadearam, por exemplo, eventos como a independência das colônias espanholas e portuguesa na América. E seus impactos tão duradores no ocidente, que na historiografia passou a ser considerada um marco de transição entre a Idade Moderna e a Contemporânea. Em outras palavras, a Revolução Francesa inaugurou a era histórica em que vivemos, segundo os marcos cronológicos da História.
O contexto da Revolução Francesa: o Antigo Regime
Às vésperas da Revolução, em 1789, a sociedade francesa apresentava características típicas de uma sociedade feudal. O direito entre os homens provinha não da igualdade natural entre eles, mas da posição social que ocupavam. A sociedade estava dividida em três estamentos, ou ordens sociais. Tais estamentos eram formados, basicamente, a partir de laços de consanguinidade — exceto o clero –, o que lhes garantia direitos e privilégios distintos.
- Na base da pirâmide social encontrava-se o TERCEIRO ESTADO. Esse estamento era formado por plebeus despossuídos de influência política: trabalhadores urbanos, camponeses, pequena, média e alta burguesia, além de profissionais liberais;
- no meio do escalonado social, situava-se o SEGUNDO ESTADO. Tal ordem era formada pela nobreza, uma classe de aristocratas, que abrigava de ricos proprietários de terras a detentores de títulos concedidos pelo rei.
- no topo da pirâmide, figurava o PRIMEIRO ESTADO, que incluía os representantes da Igreja, divididos em alto e baixo clero. Havia, ainda, a figura do rei que, decorrente do processo de formação dos Estados Nacionais, buscava centralizar o poder estatal. Acreditava-se que o rei recebia a incumbência real diretamente de Deus.
Características da sociedade francesa divida em estamentos sociais
Os estamentos sociais franceses apresentavam certa flexibilidade. Isso permitia, em alguns caso, ao indivíduo, passar de uma ordem a outra. Era o que acontecia, por exemplo, com a nobreza de robe, que era oriunda da burguesia e adquiria seus títulos de nobreza por meio da compra ou de favores prestados ao rei. Este nobres passavam a frequentar a corte real e, assim, desfrutavam de certos privilégios, como a isenção de impostos e direitos especiais nas cortes judiciais.
Todas as benesses que o rei concedia ao Primeiro e ao Segundo Estado, assim como as extravagâncias da própria corte, recaíam sobre o Terceiro Estado. Isso se dava na forma de pesados impostos, em uma sociedade com pouca mobilidade social, onde as diminutas possibilidades de ascensão, limitavam-se a poucos indivíduos cujo poder econômico fosse suficiente para adquirir títulos de nobreza.
Foi sob estas condições, marcadas por profundas desigualdades, que em 1789 a França se viu convulsionada. A sociedade clamava por mudanças que pusessem fim a um regime que mostrava-se insustentável para recepcionar as transformações pelas quais passava o mundo moderno.
Leia também: Resumo do livro: A Revolução Francesa, de Albert Soboul.
As causas da Revolução Francesa
É importante saber discernir entre as causas da revolução, aquelas que serviram de estopim para eclosão da revolta, e aquelas que são de ordens estruturais. Entre estas, situam-se o arcaico modelo social francês do Antigo Regime, de muitos privilégios para poucos e quase nenhum para a maioria. Soma-se a isso a ascensão econômica de uma nova classe social, a burguesia, que embora detentora de poder econômico, era despossuída de influência política. Com tais características, o antigo modelo político e social da França começava a dar sinais de insustentabilidade. E, no final do século 18, alguns fatos pontuais concorreram para que se iniciassem as revoltas que dariam fim à velha ordem. Como veremos a seguir, serviriam de estopim para início da revolução.
Os anos que antecederam a Revolução
Na década anterior à revolução, a França havia saído derrotada da guerra de independência dos Estados Unidos. Isso gerou uma soma vultuosa em dívidas para a monarquia francesa, levou o país a uma situação de quase penúria financeira. Frente à calamidade econômica pela qual passava o reino, em 1787 o ministro das finanças de Luis XVI, Alexandre Calonne, propôs um conjunto de reformas fiscais que visavam estabilizar o quadro. Entre as medidas, estava a cobrança de impostos de todos os proprietários de terras do reino. Isso atingia, em especial, uma classe de nobres, detentora de grandes porções de terras, denominada pela nobreza provincial.
As medidas de Calonne geraram grande insatisfação entre a nobreza, que em 1788 se rebelou contra o rei e passou a exigir a convocação da Assembleia dos Estados Gerais para tratar da crise. A situação foi agravada, naquele ano, por uma intempérie climática que resultou em uma colheita com índices alarmantemente baixos levando à fome e à miséria a um grande número de camponeses. A crise no campo desencadeou um movimento migratório para as cidades, fazendo crescer, principalmente em Paris, as fileiras de desempregados e empregados em condições subumanas nas insalubres fábricas da cidade. Sem alternativas, o rei cedeu às pressões da nobreza e convocou, para maio de 1789, a Assembleia dos Estados Gerais.
A reunião dos Estados Gerais e a Assembleia Constituinte.

A reunião dos Estados Gerais se deu a partir de 05 de maio de 1789. A última Assembleia dos Estados Gerais havia se reunidos em 1614 e, pelas regras vigentes, cada Estado possuía o mesmo número de parlamentares e votavam em separado, apresentando, ao final, um voto por Estado para cada questão deliberada .Por este formato de votação, o Primeiro e o Segundo Estados sempre saiam-se em vantagem, uma vez que o deliberavam favoráveis às mesmas causas, barravam as demandas mais progressistas do Terceiro Estado. Este, por sua vez, pleiteou junto ao rei que para a nova Assembleia, as votações se dessem por cabeça, pelo sistema um “homem um voto”. Exigia, também, que o número de seus membros fossem dobradas em relação ao Primeiro e Segundo Estado. Uma vez que não teve suas reivindicações plenamente atendidas por Luis XVI, a quem cabia decidir as regras da Assembleia, iniciou um movimento de boicote à reunião dos demais Estados e durante a abertura da Assembleia, invadiu a sala de jogos do palácio real, no memorável episódio que ficou conhecido como o Juramento do Jogo da Péla, e dali passou a deliberar como Assembleia Nacional.
A fim de dissuadir os revoltosos, o rei convocou suas tropas para os arredores de Paris. O povo, temendo tratar-se de um golpe da aristocracia contra a Assembleia, começou a se armar, iniciando um levante do qual faz parte o emblemático momento da tomada da Bastilha, a 14 de julho daquele ano. No campo, as notícias que chegavam da cidade, desencadearam uma onda de violência que se espalhou por quase toda a França com saques e invasões à propriedades privadas e prédios públicos. A Assembleia Nacional, atuando como poder paralelo ao rei, criou um comitê de segurança, que instituiu a Guarda Nacional, uma milícia armada que atuaria tanto para debelar as revoltas populares, quanto para conter as forças reais, se necessário. O rei recuou com suas tropas e reconheceu a Assembleia formada pelo Terceiro Estado como Assembleia Nacional Constituinte, que ficaria incumbida de redigir a primeira Constituição da França.
A Monarquia Constitucional.
Com a consolidação da Assembleia Nacional, iniciaram-se as discussões em torno da primeira Constituição francesa, que entraria em vigor a partir de 1791. Com a nova Constituição, os poderes de Luis de XVI ficaram limitados. O rei continuaria chefe do executivo, porém, sem poder de legislar. Os privilégios do clero e da nobreza foram abolidos e as ordens sociais extintas. A Constituição francesa reconhecia os direitos civis de seus cidadãos como o de votar e ter igualdade perante as leis. Mas a monarquia constitucional pouco durou, quado em junho 1791 o rei Luis XVI tentou uma fuga de Paris, deixando uma carta onde renegava os valores constitucionais por ele jurados e prometia voltar para libertar a França da revolução. Foi capturado em um posto de fronteira e obrigado a retornar a Paris sob escolta dos revolucionários. A traição do rei à Constituição que ele mesmo havia jurado, gerou mais uma grande onda de revolta entre a população, que via no ato, uma traição ao país, pois naquele momento, os regimes absolutistas da Europa, ao solidarizar-se com o rei, planejavam invadir a França para conter a revolução. Em agosto de 1792, a Assembleia suspende os poderes do o rei e convoca eleições para formar uma Convenção, que decidiria o destino de Luis XVI.
A Convenção e a execução de Luis XVI.

A Convenção foi eleita em setembro de 1792 e sua primeira medida foi decretar a abolição da Monarquia Constitucional e a instauração da República. Restava, no entanto, aos deputados eleitos, o julgamento do rei. Não tardou para que se evidenciassem as discordâncias dentro do Clube Jacobino, grupo que dominava na assembleia. Os mais moderados, chamados Girondinos, defendiam a pena de prisão para o rei, enquanto os mais radicais, que passou a ser chamado de Montanha, devido às posições que ocupavam no plenário — as fileiras das cadeiras mais altas no parlamento — clamavam por uma punição exemplar e pediam a pena de morte a Luis XVI. Entre os girondinos e montanheses, situava-se a Planície, assim conhecidos por ocuparem os assentos do setor inferior do salão, que ora pendiam para o lado dos girondinos, ora para o lado dos montanheses, conforme as conveniências políticas. Por fim, venceu a ala radical e o rei foi guilhotinado em janeiro de 1793.
Com a execução do rei, aprofundou-se a cisão entre os dois grupos. No entanto, a Montanha saiu-se fortalecida e passou a dominar a Convenção, pondo em curso a política do Terror, propugnada por setores radicais de seus quadros, dominados pelos sans-culottes. Em setembro de 1793, foi aprovada a “Lei dos suspeitos” que colocava qualquer um — contra o qual pairasse a menor evidência de traição, em condição de ser julgado de forma sumária e condenado a guilhotina. A política do Terror, inicialmente, voltou-se contra os monarquistas, porém, não tardou a atingir o próprio núcleo da Montanha, alcançando setores das alas radicais e proeminentes líderes da Convenção, como Danton e Camile Desmoulins, acusados de indulgência para com traidores da revolução e guilhotinados em abril de 1794.
No dia 26 de julho do mesmo, Robespierre fez um discurso na Convenção, fazendo acusações generalizadas a seus pares. O pânico de que nova onda de decapitações se estendesse de forma indiscriminada a outros membros do parlamento, mobilizou parte de seus pares a tramar um golpe contra sua liderança. No dia seguinte ao seu discurso, foi votada a sua prisão e o líder do Terror sucumbiu ao processo de truculência que ele própria havia instituído, sendo guilhotinado em 28 de julho.
O Diretório, o Consulado e o fim da Revolução.
Com a morte de Robespierre, a nobreza provincial assume o protagonismo da revolução e inicia a Reação Termidoriana. Em 1795 é estabelecida uma nova Constituição para a França que prever a criação de um Diretório, formado por três representantes, que assumirá as prerrogativas do poder executivo. A nova Constituição prever também que a Assembleia tenha parte de seus membros renovados anualmente à razão de 1/3. Somente os cidadãos ativos, ou seja, os ricos proprietários, poderiam votar a partir de agora. As revoltas populares são reprimidas duramente e centenas pessoas, entre as alas mais radicais da representatividade popular, é enviada para a guilhotina. É o período conhecido na revolução como o Terror Branco.
Os Termindorianos, enfrentam não só a reação popular, na figura dos jacobinos, como a insurreição de monarquistas, que pretendiam restaurar a monarquia e liquidar a república. É neste contexto que surge a figura de Napoleão Bonaparte, que articula-se com a representação do Diretório para aplicar um golpe e instituir um executivo que estivesse imune às sucessivas reviravoltas do processo processo revolucionário francês.
O golpe, em novembro de 1799 dissolve a Assembleia e institui um Consulado no lugar do Diretório. Junto à três outros cônsules, Napoleão assume o poder na França e decreta o fim da Revolução Francesa.