Aqui na Sala dos Professores, hoje vamos trazer um assunto de grande relevância para a profissão docente: as teorias do currículo. Falaremos sobre o artigo do então mestrando em educação pela PUC-PR (2017), Eduardo Felipe Hennerich Pacheco, graduado em Filosofia e especialista em Antropologia Cultural por esta mesma instituição. O trabalho foi publicado nos anais do XIII Congresso Nacional de Educação – Educare, realizado no ano de 2017. O autor trata de analisar o currículo como fator de inclusão e exclusão social a partir da discussão sobre os aspectos históricos das teorias do currículo.
Pacheco explica a motivação de sua investigação a partir da problematização da seguinte questão: “como a estrutura curricular influencia e determina a visão de mundo e de sociedade dos sujeitos que estão inseridos nessa estrutura?“. Para tanto, se vale de pesquisa bibliográfica qualitativa para embasar a sua fundamentação teórica, esclarecendo que a “abordagem qualitativa utilizada teve como propósito referenciar as análises bibliográficas utilizadas no texto, com o intuito de dialogar com a complexidade e a singularidade presentes na sociedade contemporânea”.
O autor apresenta uma bibliografia, principalmente, referenciada na obra de consagrados nomes que tratam do tema, como Ana Maria Eyng, Nilma Lino Gomes e J. G. Sacristán, trazendo ao longo do texto, oportunas citações destes autores que ajudam a elucidar a temática em questão. Outras autoridades no assunto, ou que já abordaram a questão de forma correlata, não foram negligenciadas, de forma que José Carlos Libâneo e Maria da Graça Nicoletti Mizukami também constam das referências bibliográficas indicadas.
Inicialmente Pacheco aborda a questão conceitual de currículo que, tratando-o como instrumento, compreende o conjunto de conteúdos a serem trabalhadores nas instituições de ensino para determinada disciplina ou campo do saber. No entanto, ressalta o autor que o currículo não é um campo neutro, mas se constitui a partir de dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais e está impregnado de valores, ideologias e interesses que atuarão sobre aqueles à quem se destina, refletindo as ideologias de quem o concebeu:
currículo trata-se de um campo impregnado de ideologias, valores, forças, interesses e necessidades que, diretamente ou indiretamente, formam a visão de mundo dos sujeitos envolvidos em sua estrutura, e de certa forma, contribui para a própria formação identitária dos indivíduos que o cercam.
A partir de então, o artigo envereda pela análise das teorias do currículo propriamente ditas, atendo-se, de forma criteriosa, sobre cada uma delas e conceituando-as no tempo e espaço, resgatando o contexto histórico de surgimento de cada uma delas.
Teorias Tradicionais
Acerca das Teorias Tradicionais do currículo, conforme o autor, estas sofreram fortes influências tayloristas e tiveram seu principal representante em John Franklin Bobbitt (1876-1956).
Baseado na teoria da administração econômica de Frederick Taylor (1856-1915), o modelo que Bobbitt preconizava, tinha como palavra de ordem a eficiência. Nesse sentido, o currículo tornava-se uma questão de gestão e organização, ocorrendo de forma mecânica e burocrática
Teorias Críticas
Esta concepção de currículo prevaleceu até a década de 1960, quando pensadores de inspiração marxista passaram a contestar as teorias tradicionais e começaram a fundamentar o que então passaria a ficar conhecido como as Teorias Críticas do currículo.
A insatisfação com a escola excludente e seletiva foi expressa pela crítica advinda dos novos movimentos sociais. Eles denunciavam a despreocupação da educação (centrada em um currículo tradicional) com o processo de aprendizagem dos alunos, e criticavam ainda mais o esvaziamento dos conteúdos que eram repassados sem um verdadeiro significado.
A partir de tal crítica às formas tradicionais de currículo, esses teóricos saíram em busca de alternativas que pautassem o currículo de sentido e significado para o sujeito a quem se destina, fazendo superar a condição de mero instrumento doutrinador para manutenção do status quo e reprodutor da visão hegemônica das sociedades. Sob este aspecto, ao privilegiar a cultura dominante, o currículo tradicional transformava-se em principal instrumento de exclusão.
Teorias Pós-críticas
A partir da década de 1970, ainda novas concepção de currículo sobreporiam tanto os pensadores marxistas da Teoria Crítica, quanto os tradicionalistas, da Teoria Tradicional. Pautadas pelo multiculturalismo, onde o currículo deveria ser a voz de expressão de todos, surgem as Teorias Pós-críticas do currículo, que trazia para o centro das discussões o papel da mulher, das relações homo-afetivas, enfim, dos grupos que constituem as minorias esquecidas ao longo da história.
Com essas questões vindas à tona pelo movimento feminista, outras questões começaram a surgir. As questões raciais e étnicas, as questões da diversidade sexual, a teoria quer, e a diversidade em geral, também ganharam forças e começaram a aparecer nas teorias pós-críticas do currículo.
Assim, após deter-se nos aspectos históricos e políticos da Teorias do Currículo, o autor volta-se para sua conclusão.
Como apresentado no presente trabalho, no decorrer dos panoramas históricos do ensino à luz das perspectivas curriculares, percebemos que as ações pedagógicas e o ensino foram determinados pelas diferentes condições sociais, econômicas e culturais.
(…)
Após a análise dos aspectos históricos das teorias do currículo, podemos indagar e observar como as relações de poder interferem na constituição do currículo escolar, e se esse currículo acolhe ou exclui quem dele participa. E nesse interim, concordamos com Fernandes e Freitas (2008, p. 22) quando comentam que, a escola precisa refletir, como parte de sua concepção de educação se o seu currículo favorece “à exclusão que ela pode realizar, caso afaste os estudantes da cultura, do conhecimento escolar e da própria escola, pela indução da evasão por meio de reprovação” ou a inclusão por meio de um currículo que valorize a emancipação do aluno e sua subjetividade.
E conclui:
Por isso, a compreensão das teorias sobre currículo se fazem importantes e necessárias, pois é por intermédio dessa compreensão que poderemos perceber quais são os valores e hábitos que nossos currículos induzem, e somente a partir dessa reflexão poderemos elaborar currículos verdadeiramente inclusivos.
O artigo de Eduardo Felipe Hennerich Pacheco, “Aspectos históricos das Teorias do Currículo”, aqui analisado e resumido, nos permite uma boa reflexão acerca do papel do currículo na escola e na sociedade. Longe de ser um mero instrumento técnico de trabalho nas mãos de professores e instituições de ensino, é um reflexo do seu tempo, da sua sociedade e do seu contexto. Podendo estar a serviço do status quo a que serve, mas também da reflexão que poderia alterá-lo.
O artigo completo Aspectos históricos das Teorias do Currículo, você pode baixar aqui, em PDF.