Usar o cinema como recurso pedagógico é sempre uma boa oportunidade para vivenciar o lúdico em sala de aula. Nesta proposta de atividade, analisarei possíveis abordagens da animação produzida pela DreamWorks, em 2001, Shrek, um conto como nunca se viu. A proposta é para trabalhar com estudantes do 6º sexto ano do Ensino Fundamental. A escolha de Shrek não necessariamente pela ambientação histórica, mas principalmente por outros fatores que permeiam a trama do filme, como os conceitos de empatia, amizade, solidão, felicidade, além de tantos outros aspectos sublimes que perpassam a animação. Portanto, ao observar o enredo sob essa perspectiva, fiquei bastante convicto de que seria uma excelente oportunidade, não só para ambientar os estudantes no início dos estudos de Idade Média, por exemplo, mas também pela possibilidade de ‘transversalizar’ temas tão contundentes para os tempos atuais.
Shrek, um conto como nunca se viu
Shrek, um conto como nunca se viu é a primeira de uma série de outras três animações que foram grande sucesso de bilheteria em todo mundo na última década. Os demais títulos são Shrek 2 (2004), Shrek Terceiro (2007), Shrek para sempre, capítulo final (2010). As dublagens originais contam com as vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, entre outras personalidades do cinema. No Brasil, as dublagens do primeiro filme tiveram a participação do saudoso humorista Bussunda dando voz ao personagem principal.
Considerações históricas sobre Shrek…
A trama de Shrek é ambientada em algum momento da Idade Média, impossível de precisar. Mas pelas características da história, bem possível que seja entre o séculos V e X (Alta Idade Média). O filme não é uma obra de história, nem documental. Trata-se de uma película de entretenimento para o grande público, logo rigor histórico não é uma premissa. Mas em sala de aula, é importante pontuar algumas inconsistências. Indicaremos algumas das mais gritantes. A primeira delas é que na cena inicial do filme, Shrek aparece lendo um livro, aparentemente impresso e encadernado. Considerando outros aspectos do enredo, pode-se inferir que a trama se passa em um tempo bem anterior ao do surgimento da imprensa de Gutemberg, portanto, não havia livros impressos na época de Shrek, tão pouco de acesso tão fácil que um ogro, isolado em um pântano distante, pudesse ter um.
O segundo ponto a considerar diz respeito à chegada de Shrek ao castelo onde vive lord Foquard. A aparência do castelo remete mais a um arranha-céu contemporâneo do que a um castelo medieval, com direito a catracas giratórias bastante parecidas com a que vemos habitualmente nas portarias de prédios modernos. Consideremos que sejam licenças poéticas da produção que em nada estragam a beleza do filme.
Outros detalhes pululam na tela vez ou outra, como os lustres do castelo de Foquard, que parecem indicar luz elétrica. Por fim, na cena final quando todos comemoram o tão esperado final feliz de Shrek e Fiona em uma festa, o Burro faz papel de vocalista principal usando um microfone. Não tomemos tais coisas como um erro, mas como pontos sobre os quais podemos chamar a atenção em um contexto de aula.
Breve sinopse, os personagens e algumas ilações
Tudo se passa quando Lord Foquard, um príncipe feio e nanico, inicia uma verdadeira caçada aos personagens de contos de fadas. Todos eles são aprisionados pelos guardas do príncipe e lançados de uma só vez no pântano onde Shrek desfrutava de plena paz e tranquilidade. Um burro falante e muito inconveniente é o primeiro a chegar, depois os sete anões, a Branca de Neve, Pinóquio e todos os outros. Shrek ver, repentinamente, seu canto de refúgio tomado por barulhentas e irritantes criaturas. Inconformado, resolve recorrer a Foquard para que seu pântano seja devolvido, mas ao encontrar com o príncipe, recebe uma proposta: salvar a princesa com a qual o príncipe pretende se casar, e que vive aprisionada em um castelo protegido por um feroz dragão, em troca da restauração da paz em seu pântano. Shrek topa o desafio e parte para a aventura.
Assim, em Shrek, um conto como ninguém nunca viu, as coisas não são exatamente como o habitual de um conto de fadas. O próprio Shrek é a personificação de tudo aquilo que um príncipe não poderia ser: toma banho de lama, solta flatulências, arrota a vontade e ainda por cima cheira mal e vive em um pântano fétido. Enfim, é um ogro. No entanto, é ele que salva a princesa! Em contraste com todas as suas qualidades de brutamontes, porém, Shrek é dotado de sensibilidade, tem virtudes e no fundo se ressente da solidão que tanto busca. Na verdade, sofre com o sentimento de rejeição que a sociedade lhe impõe.
Foquard, o ‘príncipe’
Lord Foquard, por outro lado, o ‘príncipe’ da história, é um ser abjeto, uma criatura abominável, dominada pelos sentimentos de inveja e ambição. Por impotência, é incapaz de salvar a própria princesa com quem deseja se casar e propõe uma barganha a Shrek. O importante para ele é se beneficiar das circunstâncias. No final das contas, fica claro, o príncipe na verdade é o ogro. Compreendem?
Burro, o ‘tagarela’
O personagem impossível de escapar à atenção do telespectador, que também é a figura mais engraçada do filme, é o Burro. E o encontro dele com Shrek, já no comecinho da história, dá a pista para entendermos de que tipo de sujeito estamos falando. O Burro é aquele cara entrometido, oferecido, falastrão sem nenhum senso de ‘simancol’, por isso, pouco conveniente para se ter por perto. Mas, por trás dessa maneira extravagante, revela-se um amigo solidário, leal e que demonstra empatia aos dilemas existenciais de Shrek, mesmo que só tome patadas do ogro. Se torna, por fim, um grande conselheiro do amigo.
A princesa
A princesa Fiona vive enclausurada em uma torre, protegida por um dragão. Para resgatá-la, Shrek precisa subjugar o dragão e vencer diversos obstáculos. Faz tudo em companhia de seu parceiro Burro. Fiona, no entanto, sonha com um príncipe, “o amor verdadeiro”, de que ganharia um beijo que faria quebrar a maldição que a faz virar um… ogro, todos os dias, ao cair da tarde. Para sua surpresa, no entanto, seu herói não chega montando em uma alazão, mas acompanhando de um burro pangaré e não é nada menos nada mais que também um… ogro!
Enfim…
Shrek resgata a princesa e determina-se a levá-la de volta a Lord Foquard em troca do sossego em seu pântano. No caminho, os dois se apaixonam. O que era uma maldição para Fiona, se torna sua verdadeira felicidade (viver como um ogro ao lado de Shrek) e o que parecia impossível a Shrek (encontrar um amor), se torna uma realidade. E assim, foram viver… feios para sempre.
Abordagem em sala de aula e metodologia
Feita a contextualização do filme, passemos a algumas considerações para utilização do filme em sala de aula. Lembrando que a proposta é trabalhar Shrek com turmas do 6º sexto ano do Ensino Fundamental. O momento oportuno, como já colocamos no tópico inicial deste post, é quando o professor for dar início aos trabalhos com Idade Média, então, conforme nossa sugestão de planejamento para sexto ano de acordo com a BNCC, este assunto estaria contemplado a partir do quarto semestre letivo.
Exibição da filme para a turma
Passo fundamental para iniciar os trabalhos é assistir ao filme. Caso já tenha feito em outro momento, é recomendável que o faça novamente, a partir das reflexões propostas aqui. O filme está disponível no serviço de streaming da Amazon. O custo de assinatura do serviço é de R$9,90 mensal. Após isso, levar o filme para a turma. Caso a escola não possuam um local apropriado, com acesso a Internet e o serviço de streaming referido, buscar alternativas. Certamente, ainda é possível encontrar uma cópia do filme em DVD, levantamento que pode ser feito entre os próprios estudantes, caso o professor não de disponha de uma.
Material necessário para esta etapa
- Sala de cinema ou auditório, provido de acesso a Internet, telão e serviço de streaming da Amazon.
- Caso não disponha do itens acima: providencie uma cópia do filme em DVD, computador com leitor de DVD, datashow e espaço adequado para projeção (pode ser a própria sala de aula).
- Promova um ambiente acolhedor (é possível uma pipoquinha?)
- Contextualize com o estudantes o assunto que vai trabalhar.
Abordagens possíveis
São muitas as perspectivas sob as quais você pode trabalhar com Shrek, envolvendo seus estudantes em reflexões sobre importantes temáticas. Relacionamos algumas sugestões que esperamos, possam ser úteis na elaboração do seu plano de aulas.
Perspectiva histórica
- Castelos e cidades fortificadas na Idade Média;
- Relações de poder;
- Vestuário, Costumes e Hábitos;
- Papel da mulher na sociedade medieval e contemporânea.
Temas transversais (competências sócio-emocionais)
- Empatia;
- Solidão;
- Humor;
- Amizade e Lealdade;
- Felicidade;
- Padrões de beleza na sociedade medieval e contemporânea.
É importante que você reserve um tempo necessário para elaborar a sua aula. Formule questões que leve a turma à reflexões sobre as perspectivas propostas e pense também em uma forma de avaliar tudo isso.
Repositório de cenas
Separamos abaixo um repositório de cenas de Shrek que podem ser úteis para retomar algum aspecto específico do filme com a turma. Os vídeos estão disponibilizados no Youtube, pelo canal Baú de Cenas.
Excelente ajuda!!1
Fico feliz por ter ajudado.
Será se tem como saver em qual país mais ou menos, o filme se passa?
Acho pouco provável, Júlia. O filme é aparentemente ambientado em um período em que os estados nacionais ainda não haviam se constituído, mas é possível que seja em algum lugar da Europa Ocidental.