Escolas para ‘Subnormais’ na Inglaterra. Mais uma triste página da história.

A história da humanidade está cheia de páginas tristes, construídas sobre irracionalidades que o homem pratica contra o homem. Essa é mais uma delas. Trata-se de um triste capítulo da história recente da Educação na Inglaterra que envolve racismo, separatividade e exclusão, que em sua versão mais crua, lembra o Apartheid na África do Sul. A história foi retratada em um documentário produzido pela rede de televisão BBC, posteriormente, virou um filme, chamado Educação, recentemente, exibido em Tela Quente, da TV Globo, como parte de sua programação especial para o dia da Consciência Negra.

O filme, tal como o documentário, é uma narrativa construída a partir de fatos reais, que remetem aos internatos que funcionaram na Inglaterra, entre os anos de 1960 e 70, cuja finalidade era acolher crianças abaixo do desenvolvimento cognitivo dito ‘normal’ para o padrão social vigente. Já não fossem cruéis o suficiente para separar os ‘normais’ dos ‘subnormais’, essas escolas receberam, por um determinado período de tempo, uma quantidade gigantesca de crianças negras, na maioria filhos e filhas de imigrantes caribenhos, que chegavam ao país em busca de melhores condições de vida.

Chamadas de Escolas para Subnormais (ESN), nome taxativo e corriqueiramente suavizado como “escolas especiais’, essas instituições de ensino, nos anos em que funcionaram, recebiam um percentual de crianças negras que correspondia a praticamente o dobro do de outras escolas. Nas escolas ESN o número de crianças negras era de aproximadamente 28%, enquanto essa taxa, era de aproximadamente 15% nas escolas comuns.

Conforme foi denunciado, na época, não havia critérios científicos válidos que justificassem o envio da maioria das crianças negras para as escolas ESN. Muitos testes de QI, que eram realizados com o intuito de classificar crianças como normais ou subnormais, não levavam em consideração o contexto de vida e a origem das crianças. Dessa forma, filhos de imigrantes, na maioria das vezes, saiam-se muito mal nos testes em função da dificuldade com a linguagem e não, propriamente, por possuir qualquer deficiência intelectual que os impedissem de frequentar uma escola comum.

Noel Gordon foi um dos estudantes das escolas ESN, cuja história foi retratada no documentário da BBC:

Na primeira noite no internato, Noel ficou deitado na cama sozinho, chorando e pedindo pela mãe. “Eu ainda consigo sentir o cheiro das carteiras velhas de madeira. E lembro de ser muito maltratado nos primeiros dias”, diz.
Um estudante lançou insultos raciais contra ele na sala de aula, mas não foi repreendido. O professor simplesmente pediu que se sentasse.
A escola não tinha currículo. Apesar de Noel ter recebido um livro de um professor, ele nunca foi ensinado gramática básica nem como escrever. Ele fazia algumas contas de somar e subtrair, mas, durante as aulas, só costumava fazer tarefas manuais e brincar.
Os pais só perceberam que tipo de escola era quando Noel, na época com 7 anos, recebeu um soco de um adolescente de 15 anos. Por causa do episódio, seu pai visitou o internato pela primeira vez.
Noel se lembra do pai dizendo para o diretor: “Essa escola é para crianças incapacitadas”. Ele diz que o diretor respondeu: “Sim, mas não gostamos de usar essa palavra. Nós chamamos de crianças com aprendizado lento.”
A descoberta foi devastadora, mas o pai de Noel sentiu que não tinha poder para mudar as coisas. Noel não teve a oportunidade de fazer testes educacionais e obter qualificações. Ao lembrar, ele diz que ser rotulado de “educacionalmente subnormal” o fez sentir inferior para toda a vida e provocou vários problemas psicológicos.
“Sair da escola sem nenhum diploma é uma coisa, mas sair da escola acreditando que é burro é algo completamente diferente. Acaba com sua confiança”, diz.

BBC

Inicialmente, os imigrantes que chegavam ao país tinham uma visão positiva das ‘escolas especiais’, por acreditarem que seus e filhos estavam sendo enviados para um ambiente propício de aprendizagem, que os fariam superar, inclusive, dificuldades culturais. No entanto, ao perceberam que se tratava, em verdade, de uma política xenófoba e de limpeza étnica das escolas para brancos na Inglaterra, passaram a pressionar o governo contra essa prática.

Um livro, publicado em 1971, “Como a Criança das Antilhas se Torna Educacionalmente Subnormal no Sistema de Educação Britânico“, escrito por Bernard Coard, que foi professor em uma escola para subnormais, impactou a opinião pública da época e, por fim, em 1980 o sistema de internato foi desativado.

Um grande abraço, até a próxima!

Essa história foi publicada em recente reportagem da BBC News, e está disponível para leitura em https://www.bbc.com/portuguese/geral-57472104.

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