Você sabe o que é Andragogia? Etimologicamente, o termo não guarda grandes segredos, pois a exemplo de outras palavras de nossa língua, como “demagogia”, “geologia” ou mesmo “etimologia”, vem da junção de duas palavras gregas, onde andro remete à homem e agogia a algo como liderar, orientar ou conduzir. De tal forma, o termo em sua junção, quer dizer aproximadamente orientar ou conduzir o homem, ou seja, educar. No caso, Andragogia, poderia ser compreendida como educação de homens. Em contraparte à Pedagogia, que de forma literal quer dizer “educação de crianças”, poderíamos tomar Andragogia como “educação de homens adultos”.
Como uma proposta educacional, no entanto, andragogia é um conceito que surge no contexto das investigações de práticas adequadas à educação de adultos, na segunda metade do século XX. Foi usado pela primeira vez, por Malcolm Knowles, em 1968, em um artigo intitulado “Adult Leadership”, sem tradução para o Português.
Nesta publicação, analisaremos o artigo de Sónia Mairos Nogueira, “A andragogia: que contributos para a prática educativa?” publicado na revista Linhas (v. 5 n. 2. 2004). A intenção entender o que é Andragogia, como surgiu, qual a sua abrangência e também as suas limitações. Vamos às ideias da autora! Boa leitura!
Andragogia VS Pedagogia
Convencionalmente, o conceito de Pedagogia surge como uma proposta de educação de crianças, uma vez que deriva do grego, podendo ser traduzido como paid (criança) e agogus (líder), em uma junção literal, “líderes de crianças”. Tal modelo, foi originado da concepção de educação estabelecida sobretudo entre os séculos VII e XII, durante a Idade Média, onde a finalidade da educação era doutrinar na fé católica. Como ressalva Nogueira (2004), “as estratégias e metodologias de ensino assentavam-se na aquisição de conteúdos”.
Para a autora, essa concepção de educação tradicional passou a encontrar obstáculos a partir das primeiras décadas do século XX, quando o público das escolas passou a se diversificar, inclusive, com grande afluxo de adultos que passaram a buscar o processo de educação formal junto às instituições de ensino:
Quando as escolas seculares se organizaram, séculos depois, este era o único modelo existente. Porém, o público-alvo da educação foi-se transformando, em particular fruto do acréscimo de crianças, provenientes de diferentes classes sociais; assim como de adolescentes e adultos que se inscreveram em actividades de educação formal.
(NOGUEIRA, 2004)
É nesse contexto de inadequação das abordagens pedagógicas tradicionais para o ensino de adultos, que Knowles propõe uma nova abordagem que sirva, sobretudo, aos interesses dos novos sujeitos da educação, trazendo ao debate, o conceito de Andragogia.
Assim, enquanto que a pedagogia era definida como “a arte e a ciência de ensinar as crianças”, uma vez que esta palavra deriva das palavras gregas paid (que significa criança) e agogus (que significa líder de); a andragogia é conceptualizada como a arte e ciência de facilitar a aprendizagem dos adultos, derivada das palavras gregas anēr com a conjugação andr- (que significam Homem, não rapaz ou adulto)
(NOGUEIRA, 2004)
Andragogia E Pedagogia
Inicialmente, Knowles contrapôs os dois modelos, o Andragógico e o Pedagógico, considerando possíveis incompatibilidades. No entanto, com o avanço de sua pesquisa, Knowles concebeu uma perspectiva mais “integrativa e continuista” entre as duas abordagem, mas não considerando o modelo pedagógico de então como adequado para adultos. Pelo contrário, Konwles concebeu a aproximação das duas concepções de educação em uma perspectiva em que a Andragogia contivesse a Pedagogia:
Segundo esse autor, ambos modelos podem ser utilizados com crianças e adultos; pelo que a oposição inicial que era estabelecida entre estes modelos se esbateu. Contudo, a aproximação das duas perspectivas que Knowles opera não se baseia na aceitação da pedagogia como um modelo adequado em determinadas circunstâncias, mas na suposição de que o modelo andragógico engloba o modelo pedagógico e que, por isso, os adultos podem encetar aprendizagens tendo por base este modelo, mas com o propósito de evoluir para a utilização do modelo andragógico
(NOGUEIRA, 2004)
Sob essa perspectiva, Nogueira (2004), apresenta-nos um quadro em que enceta as principais diferenças entre as duas abordagens, considerando que:
Como se verifica através da leitura do Quadro 1, a distinção entre a actuação de um pedagogo e um andragogo resulta da aplicação do método pedagógico, enquanto que o pedagogo o aplica escrupulosamente, o andragogo procura que os aprendentes se responsabilizem, progressivamente, pelas suas próprias aprendizagens.
(NOGUEIRA, 2004)
Quadro comparativo: Andragogia e Pedagogia
Processo de (ensino) aprendizagem | Pedagogia | Andragogia |
---|---|---|
Elaboração do plano de aprendizagem | Pelo professor | Pelo auxiliador de aprendizagem e pelo aprendente |
Diagnóstico de necessidades | Pelo professor | Pelo auxiliador de aprendizagem e pelo aprendente |
Estabelecimento de objectivos | Pelo professor | Através de negociação mútua |
Tipologias de planos de aprendizagem | Planos de conteúdos organizados de acordo com uma sequência lógica | Diversos planos de aprendizagem (e.g. contratos de aprendizagem, projectos de aprendizagem) sequenciados pela prontidão dos aprendentes |
Técnicas de (ensino) aprendizagem | Técnicas transmissivas | Técnicas activas e experienciais |
Avaliação | Pelo professor; Referência a normas; Através de pontuação, notas. | Pelo aprendente; Referência a critérios; Através da validação dos companheiros, facilitador de aprendizagem e peritos na área. |
O próprio Knowles, em sua obra “The modern practice of adult education: from pedagogy to Andragogy” (1980), reconhece que cabe ao facilitador da aprendizagem, avaliar para quais circunstâncias um ou outro modelo é mais adequado. Assim, resume Nogueira (2004):
Quando os aprendentes são dependentes, quando não possuem experiência prévia na área, quando não compreendem a relevância de determinado conteúdo nas suas tarefas diárias, quando necessitam de acumular rapidamente conhecimentos para atingir certas performances; então o modelo pedagógico é o mais adequado.
(NOGUEIRA, 2004)
Andragogia
Segundo Nogueira (2004), Kwnoles concebe a educação de adultos, por conseguinte o modelo andragógico, a partir de uma perspectiva mais pragmática. A educação desperta o interesse se ganha contornos de algo que possa fazer a diferença para o sujeito que busca aprender algo. Ao referenciar Allen Tough, a autora afirma:
quando adultos decidem aprender um assunto investem mais energia e tempo na realização dessa aprendizagem; para além de que prevêem, desde momentos iniciais dessa aprendizagem, quais as vantagens que dela advêm, bem como as consequências da sua não realização
(NOUGUERA, 2004)
A partir dessa perspectiva, ao longo de sua obra, Knowles define quatro premissas essenciais da Andragogia, que a diferenciam da educação voltada para crianças. Segundo o autor, adultos:
a) necessitam de saber o motivo pelo qual devem realizar certas aprendizagens;
(NOGUEIRA, 2004)
b) aprendem melhor experimentalmente;
c) concebem a aprendizagem como resolução de problemas;
d) aprendem melhor quando o tópico possui valor imediato e os motivadores mais potentes para a aprendizagem são internos.
De tal forma, a Andragogia apresenta-se como uma abordagem diferenciada para a educação que busca aproximar os processos de aprendizagens das expectativas e interesses reais do sujeito que aprende. Dessa maneira, distancia-se de um currículo disciplinar, com conteúdos definidos a priori, para aproximar das problemáticas reais da vida do estudante, valorizando as experiências prévias do sujeito e o contexto em que esteja inserido, seja social ou profissional.
Conclusão
Para Nogueira (2004), o modelo andragógico pode ser aplicado nas mais diversas atividades educativas, tanto em contexto de educação formal, quanto em ambientes institucionais, já tendo sido “utilizado com populações de diversos níveis sócio-culturais, de diferentes idades e tendo como referência de conteúdo as ciências naturais e humanas” (NOGUEIRA, 2004).