O que é Pré-história? Uma história sem história?

O período que denominamos de “pré-história” é significativamente maior, em extensão de tempo, do que aquele que nos habituamos a chamar de “história”. Habitualmente, nos referimos à “pré-história”, como todo aquele período do passado humano de antes da invenção da escrita. Para fins didáticos, isso não está de todo errado. Mas por essa ótica, considerando que a escrita foi inventada pelos sumérios, na Mesopotâmia, por volta de 4.500 a.C, e isso se tornou marco para a tradicional divisão do passado humano em “pré-história” e “história”, teríamos, assim, apenas uma ínfima parte de nosso passado relatada por documentos escritos.

Essa concepção bipartida da história da humanidade surgiu entre os primeiros historiadores modernos, no século XIX, devido à primazia que os documentos escritos e oficias ganharam sobre as demais fontes históricas. Hoje, porém, com a multiplicidade de métodos e fontes disponíveis para se estudar o passado humano, podemos reconstituir, narrar e explicar fatos e aspectos da vida cotidiana do homem desde muito tempo antes destes terem feito qualquer registro escrito de suas vidas. Talvez, por isso, já não faça mais sentido nos referirmos a este importante período da história da humanidade como pré-história. Porém, esta ainda é a denominação comum, sobretudo, para classificação cronológica da história humana, o que faz com que algumas vezes, tenhamos que recorrer a ela quando queremos nos referir à história do homem em toda a sua extensão.

Ainda estamos na pré-história?

Como vimos anteriormente, o marco temporal que assinala o fim da pré-história é a invenção da escrita. Mas, afirmação assim, tão categórica, acarreta alguns inconvenientes. O primeiro deles é que devemos nos perguntar: a pré-história realmente chegou ao fim? É sabido que séculos, e mesmo milênios depois da invenção da escrita cuneiforme pelos sumérios, civilizações inteiras viveram sem possuir um sistema de escrita formal. E um bom exemplo disso são os incas, uma civilização andina, que apesar de ter se organizado em uma sociedade altamente complexa, com sistema político e social plenamente desenvolvido para os tempos antigos, feneceu sem deixar um sistema de escrita propriamente dito. O mais próximo que os incas chegaram a isso, foi um complexo sistema de contabilidade, baseado em quipus, que era um método de fazer cálculos dando nós em cordas. Logo, pela lógica que explanamos acima, se a história começa com a invenção da escrita pelos sumérios, e os incas viveram pelo menos três milênios depois destes, seria correto afirmar que a humanidade, até então, não havia saído da pré-história?!

Quipu Inca. Pesquisas recentes apontam que os Quipus também tinha função de registrar históricas e cantos da cultura incaica. Foto: Museu Nacional.
Quipu Inca. Pesquisas recentes apontam que os Quipus também tinha função de registrar históricas e cantos da cultura incaica. Foto: Museu Nacional.

A resposta para esse pequeno paradoxo é que, atualmente, não é mais possível analisar a história da humanidade apenas por uma perspectiva cronológica, ou síncrona de fatos, eventos, ou por um prisma meramente evolucionista. Mesmo hoje é possível que hajam sociedades inteiras vivenciando sua fase primitiva, sem domínio pleno de formas de escrita. E disso, podemos tirar algumas lições: os períodos convencionais, que dividem a história, são apenas marcos temporais, criados deliberadamente por historiadores, conforme suas perspectivas de mundo.

Assim, podemos concluir que ao dividir o tempo histórico em “pré-história” e “história”, os historiadores que o fizeram, fizeram a partir de suas próprias perspectivas da história da humanidade. Ou seja, a partir de seu tempo, de seu contexto e de sua concepção de mundo. No caso, estamos nos referimos aos historiadores europeus, do século XIX, quando a História estava nascendo como uma ciência acadêmica. Esses historiadores, ao conceberem seus métodos e teorias para a nova ciência, os definiram a partir de suas próprias perspectivas de mundo, que consideravam a Europa e suas influências históricas mais próximas como referências para as suas divisões temporais. E isso é o que chamamos de herança eurocêntrica na historiografia.

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