No dia 25 de outubro de 1991, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se desintegrava definitivamente, pondo fim a um conturbado período da história contemporânea, conhecido como Guerra Fria. Acabavam-se ali, em tese, as disputas polarizadas entre o Ocidente capitalista e a Oriente comunista. Claro, só em tese, pois na realidade o que mudava de fato era apenas o pano de fundo ideológico que pautava a Guerra Fria. Disputas acirradas, como se vê, até hoje dominam o horizonte econômico, político e militar e continuam a existir entre as grandes potências mundiais, de um lado e de outro do mundo.
Como se sabe, um dos produtos dessa disputa entre Oriente vs Ocidente, no século passado, foi o que ficou conhecido como Corrida Espacial. EUA e URSS disputavam palmo a palmo a vastidão do espaço. Os soviéticos tiveram a primazia de enviar o primeiro homem para um passeio fora da atmosfera terrestre, mas os EUA conseguiram a proeza de chegar primeiro à Lua. Conquistas espaciais àquela altura, traduziam-se em potentes materiais de propaganda para cada um dos lados. Mas, ao término desse concorrido período, uma história perigosa e inusitada nos chama a atenção: a odisseia de Krikalev e Anatoly Artsebarsky, dois cosmonautas russos, ‘equecidos’ a deriva no espaço enquanto, em Terra, seu país, a URSS, se desintegrava gradualmente.
O último cidadão soviético
Em 1986 a URSS havia dado um importante passo na corrida espacial, colocando em órbita, a primeira estação espacial tripulada permanentemente. Desde então, a Estação Espacial Mir (Mir que dizer “paz” ou “mundo” em russo), permaneceu tripulada por cosmonautas soviéticos e de outras nacionalidades até 2001, quando foi definitivamente desativada por falta de recursos. Em maio de 1991, Krikalev e Anatoly Artsebarsky, foram enviados para tripular a estação, mal sabiam, que em decorrência dos desdobramentos políticos que abalariam o mundo naquele período, seriam obrigado a permanecer em órbita pelo dobro do tempo em que haviam se preparado.
Naquele momento, em plena Perestroika, promovida pelo governo de Mikhail Gorbachev, poucos podiam acreditar que em tão pouco tempo a URSS deixaria de existir. Mas os fatos precipitaram-se mais rápidos do que se podia imaginar e em 25 de dezembro daquele ano, Gorbachev renunciou ao cargo de presidente da URSS e, em instantes, o império comunista ruiu, deixando no ar (literalmente) seus dois cosmonautas. A ordem era que o retorno fosse adiado… por tempo indeterminado.
Artsebarsky teve uma passagem discreta durante o tempo em que esteve na Mir. Krikalev, no entanto, celebrizou-se por se tornar um popular cosmonauta que costumava conversar do espaço, desde a sua primeira visita, em 1988, com pessoas comuns na Terra, por meio de um rádio amador.
A estadia de Krikalev na estação Mir havia sido programada para durar cinco meses, mas os eventos que eclodiram em seu país naquele ano, fez com que esse prazo se estendesse pelo dobro do tempo. Ao retornar à Terra, em março de 1992, seu país havia se dissolvido, sua cidade natal, Leningrado, havia se transformado em São Petersburgo e o mundo, definitivamente, era outro. Sequer, o lendário Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, que os haviam propulsionados ao espaço, pertencia mais ao imponente império soviético.
Durante todo o tempo que esteve em órbita, quase a deriva, sem saber ao certo que tipo de efeitos seu corpo sofreria com gravidade zero, por mais tempo do que havia se preparado, Krikalev conversava com sua esposa, que também trabalhava para o serviço espacial russo. O casal evitava assuntos desagradáveis. Krikalev sabia da gravidade dos fatos, mas sem informações oficiais, ao se comunicar com a esposa, nunca deixava transparecer as suas angústias.
Krikalev retornou à Terra firme em 25 de março de 1992, juntamente com Artsebarsky, depois de passar 312 dias em órbita. Nesse período, circundou a Terra por mais de 5000 vezes. Incorrigível, em 2000, fez parte da primeira tripulação que viajou à ISS (Espaço Espacial Internacional), um novo projeto de exploração espacial, agora fomentado por um modelo colaborativo entre vários países, anunciando novos tempos para a exploração espacial.
A história de Krikalev foi narrada pela BBC News, em 1993, no documentário “O último cidadão soviético”, que pode ser assistido por assinantes do canal.
Essa história pode ser lida na íntegra, no site Tilt, do UOL.
Um abraço, até a próxima!